Trigésimo Oitavo Capítulo…
Françoise chegou a casa de Debora bem cedo. Trazia consigo alguns exemplares do livro finalizado para o olhar atento de Eva e Dário, mas fundamentalmente para o olhar de Debora que parecia um tanto indiferente aquele trabalho, mas foi gentil ao receber Françoise em seu atelier, lugar que poucas pessoas tinham acesso e lá ela ficou a esperar por algum comentário. A capa trazia uma fotografia antiga de Debora: era o olhar de “Giani” sobre sua pele numa tarde nublada enquanto ela se dedicava a arte num antigo casarão na cidade do Rio de Janeiro.
Françoise havia assinalado algumas páginas que ela queria que Debora saboreasse com atenção e foi o que ela fez. O sorriso foi e voltou inúmeras vezes daquela face tranquila que exibia uma curiosa forma de lucidez. Os óculos foram cuidadosamente abandonados sobre a mesinha ao lado do sofá onde ela estava sentada e então ela voltou-se para Françoise que não escondia a ansiedade:
_ O que espera que eu diga Françoise?
_ Se gostou ou não? Se era isso que tinha em mente? Ou se não era nada disso…
_ Bem, você sabe que eu não tinha absolutamente nada em mente desde o começo. Esse projeto era seu em parceria com a Eva, eu fui apenas o objeto de pesquisa…
_ Por falar em pesquisa, preciso te devolver algumas coisas…
Françoise entregou alguns cadernos, livros e uma carta cuidadosamente guardada em um plástico para não deteriorar o papel. Debora respirou fundo, exibindo um sorriso amarelecido ao pegar de volta aquela carta, que sem cuidado algum ela tirou de dentro do plástico, dobrando com descaso e deixando ali sobre a mesa. Françoise observou atentamente cada gesto, cada movimento a partir do contado dela com a tal carta que narrava um desfecho injusto, pouco humano, nada agradável de uma linda história que deveria ter tido mais capítulos, outros tantos cenários, mas que terminou ali, sem aviso, de forma precipitada:
_ Eu quero te perguntar isso desde o momento em que eu li essa carta, mas não tive coragem porque eu sei que não deve ser fácil pra você, mas eu não consegui imaginar o que você sentiu ao ler essa carta e saber de tudo que aconteceu…
Debora respirou fundo, abaixando lentamente sua cabeça como quem espia a si mesmo num passado distante. E lá estava ela, voltando da faculdade, em uma tarde agradável, a bicicleta ficou do lado de fora porque ela ainda pretendia sair, mas antes de entrar em casa, o carteiro a abordou. Um rápido aceno, um sorriso ligeiro e a correspondência foi entregue, apenas uma carta cujo destino era uma lembrança nebulenta e já há muito esquecida: George Petrasco… Depois de todos aqueles anos, ele ousava novamente procurá-la. A carta inicialmente fora esquecida sobre o móvel de entrada. Ela não queria notícias daquele homem – mal sabia ela que não era a primeira vez que ele escrevia, Dário não permitia que as cartas escritas por ele chegassem as mãos de sua amiga, preservando-a, mas naquele dia, quis o destino que ele estivesse ausente, brincando com os meninos no parquinho…
Debora trocou de roupas, preparou um chá e enquanto esperava, acabou decidindo abrir o tal envelope e lá estavam as palavras “meigas” de George:
Debora querida…
Os dias não estão sendo fáceis pra mim, mas eu tenho suportado tudo isso porque sei que é preciso. Estou sendo comportado, o que significa dizer que irei ficar pouco tempo aqui nesse lugar. Eu conto os dias pra te ver, enquanto isso imagino como será nossa vida aí em Paris… Eu queria muito vê-la, sentir o seu perfume, tocar sua pele, beijar tua boca. Quanta saudade eu tenho em mim, mas eu tento me convencer que falta pouco pra isso.Por que não me escreve? Uma palavra sua já seria o bastante… Não soube de novas exposições suas, o que me fez pensar que talvez ainda haja um problema para ser resolvido e sendo assim, preciso dizer-te o que fiz para que esteja livre de forma definitiva pra mim da mesma forma que eu estarei livre pra você em breve…
Debora respirou fundo, parecia não acreditar em todas aquelas bobagens escritas ali. A interrupção da leitura a fez voltar a xícara de chá que ainda estava muito quente e ela se acostumou a bebericar o chá numa temperatura amena. Para tal, abriu as janelas, deixando uma brisa suave entrar e ali, meio a si mesma sentiu uma enorme saudade de Giani, o que a fez voltar a ler a carta escrita por George e conforme lia, uma perplexidade crescia em seu olhar, em seus gestos. Uma lágrima percorreu sua face e a carta foi ao chão. As mãos tremulas cobriram a boca e ela tentava sustentar sua credibilidade, mas já não parecia mais ser possível, não diante daquelas palavras absurdas.
Anoiteceu sem que ela percebesse e Dário voltou com as crianças. Debora estava ali, sentada no sofá, no escuro, com o olhar distante. Moveu-se apenas quando viu seus meninos a quem abraçou fortemente:
_ A gente ficou esperando por você, por que não foi?
Dário reconheceu o envelope sobre a mesinha e viu a folha abandonada ali no chão e incomodou-se seriamente. Depois de tanto tempo sem dar notícias, ele achava que George havia desistido, mas não, lá estava mais uma de suas cartas absurdas, com dizeres desagradáveis. Ele só havia lido uma ou duas, depois de algum tempo passou a rasgá-la sem ler seu conteúdo.
Debora estava visivelmente fragilizada e a carta deveria ser a razão. Ela subiu como os meninos sem dizer praticamente nada. Estava em silêncio, apenas ouvia os dizeres eufóricos dos meninos que seguiam narrando suas aventuras no parque. Dário esperou que ela subisse para buscar pela folha e saber o que dizia George naquela maldita carta. Como de costume, o começo cheio de um blá blá blá atormentado, mas então Dário também vestiu-se de perplexidade:
Minha amada Debora, no dia em que embarcou para Paris, eu estive em Petrópolis, fui ver o meu irmão gêmeo e tentar fazê-lo entender que você era minha e que nós dois iríamos ficar juntos. Mas o Gean sempre foi teimoso e sempre se achou mais importante do que realmente era. Ele riu na minha cara quando eu falei a ele do nosso amor. E a risada dele me fez ter certeza do que era preciso fazer. Eu estava preparado, aliás, há anos eu esperava por aquele momento porque há muito eu deveria ter posto um ponto final naquele que era o meu maior tormento. Não era possível existir dois de nós…
Nós brigamos e por pouco ele não me vence, mas pela primeira vez na vida eu fui mais forte. E lá estava ele no chão e eu em pé com a arma apontada para seu peito. Foi apenas um tiro, preciso, certeiro. Ele deve ter sentido muita dor, mas ainda teve tempo de chamar por você antes do último suspiro. Foi uma cena impressionante. O último suspiro de um homem é realmente incrível… A vida acaba e sobra só aquele corpo pesado que eu arrastei pra fora e joguei no lago. Deve estar lá ainda hoje porque eu tomei todos os cuidados necessários pra que ele não voltasse… Eu não o queria importunando nós dois novamente.
Eu ia te contar naquele dia mesmo, mas durante a nossa conversa, eu me dei conta que você precisava se decepcionar com ele também, por isso aquele papel em branco, significando o vazio que ele deveria representar… Eu sei que você deve ter sofrido muito com a ausência dele, mas a culpa não foi minha… Me perdoe, mas era preciso. Só assim você estaria pronta para nós dois!
Agora que sabe a verdade, você está livre pra mim…
Com amor e seu eternamente:
George
Dário estava pasmo, subiu as escadas de forma apressada, nem mesmo chegou a ver os degraus, encontrou Debora ajudando os meninos que seguiam tagarelando sobre suas aventuras e ela seguia disfarçando bem a sua dor, o seu destempero. Ele quis intervir, mas ela não permitiu. Cuidou de Mateus e Giani, jantou com eles e tão logo eles adormeceram, se trancou em seu atelier… Anos depois de sua volta, ela se viu ali, diante daquela arte inacabada, crua que seguia esperando por uma notícia de seu “Giani” para ser algo finalmente.
A lembrança de beijos voltaram aos seus lábios, o toque na pele, as sensações de antes e depois, o olhar amendoado cruzando com o dela. A saudade multiplicou-se rapidamente e agora seria apenas isso que existiria por todo o sempre… Não haveria mais a possibilidade da surpresa ao abrir da porta, de um encontro repentino ao virar de uma esquina ou ao atravessar de uma rua. Ele não havia desistido ou mudado de idéia, ele apenas não pôde estar lá…
O silêncio de sua arte chegou ao fim ali naquele momento, em meio a dor que instalou-se em sua alma. Ela rasgou os plásticos que envolviam as telas, as esculturas de forma abrupta e ficou dias inteiros lá, sozinha, transformando sua dor, seu silêncio em arte…
Até aquele momento, Mateus e Giani sabiam apenas que a mãe deles era uma artista plástica, mas não tinham idéia do que isso significava…
>> continua…



Fiquei triste, mas já imaginava uma coisa assim, para que o Giani não tivesse ido ao encontro da Débora o George teria que ter aprontado alguma muito grave. Agora entendo porque ela casou com outro. Mas que monstro esse George, matou a própria mãe e os dois irmãos. E a irmã da Débora, o que aconteceu com ela?
Beijos e um bom dia para você.
Oi Maria Augusta, boa tarde… Eu no vejo o George como um monstro e sim como uma pessoa incapaz de suportar o descaso, a rejeio enquanto o outro (seu irmo gmeo) era desejado, querido e pior, ainda capaz de conseguir o que queria sempre. Deve ser difcil para uma pessoa fraca como ele era observar isso tudo de seu canto, sendo o nada que ele era. Eu at gosto de acreditar que ele era apenas um personagem e que na vida real isso no existe, mas… Beijos
Não acredito, não concordo, não quero.
O Giani não Lu. Fiquei triste com isso também.
Infelizmente foi assim que a histria se desenhou Agnes. Beijos
Gostei muito do capítulo, embora seja super triste.
Eu tinha certeza de que o infeliz do George tinha feito algo do tipo, ainda bem que ele morreu, não vai mais matar ninguém. Ele não vai voltar das trevas, não, né???
Enfim, que carta essa do George. Eu heim. Beijitos
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk Gostei dessa, mas fique tranquila que ele no vai voltar das trevas. Ele j se foi e isso aqui no terror, viu? rs Beijos
Caraca Lunna, não acredito no que esse George aprontou. Esse é um dos vilões clássicos, daquele que a gente respira fundo por saber que morreu.
Eu já imaginava que não iria rolar um final feliz na sua história, parece que você não é chegada nisso, mas ficou legal esse capítulo. Muito legal mesmo. Essa carta então foi o cúmulo de perfeição para descrever bem o quanto o George é patético.
Mas que depende muito do que voc chama de final feliz… Beijos
Depois de lavar o rosto, reler, deixar o coração bater mais forte… Respiro fundo e só observo de longe a trama que aos poucos vai tomando rumos diferente.
*ia até fazer gracinha, mas o capítulo de hoje pede silêncio!!!
Beijos chuvosos e cheio de saudade!!!
Ai Su, foi to difcil escrever esse captulo, parei inmeras vezes para enxugar os olhos, respirar fundo e apreciar a paisagem para s ento voltar aos rabiscos. O silencio que se contruiu em mim foi curioso. Enfim, era pra ser assim e assim o foi… Bjs