Arquivar

Archive for the ‘novela’ Category

Primeiro Capítulo

Junho 18, 2009 Lunna Deixe um comentário

o-extremo-oriente

Antes de começar, preciso salientar “é preciso tomar cuidado com os sonhos porque muitas vezes os passos que precisamos dar em direção a nós mesmos para realizá-los pode ser muito maior do que imaginamos”…

Agora sim…

Ela acordou de repente e viu-se ali, num quarto estranho. Seu corpo estava dormente e muito dolorido. Movimentar seus dedos já era uma tarefa incomoda – manter-se acordada era ainda pior. Todos aqueles fios ligados a ela e aquele barulhinho que vinha de uma máquina deixavam-na totalmente desconfortável.
Ali, bem a sua frente, estava aquela mulher de branco. Uma enfermeira a checar os funcionamentos da máquina, a colher informações sobre a paciente. E ao perceber os olhos abertos da paciente abriu um sorriso confortável e foi buscar rapidamente o médico que prontamente veio até ao quarto:

_ Bom dia dorminhoca. Disse ele de forma agradável, como quem tenta evitar maiores desconfortos – como se realmente fosse possível. Ela parecia bem. Ele parecia satisfeito por vê-la acordada depois de tantos dias. Seguiu todos os procedimentos e por fim a liberou de tantos fios e tubos. O desconforto ainda existia, mas já não era tanto quanto antes…

Por fim vieram as primeiras respostas as muitas perguntas que não chegaram a ser feitas. Ela não se lembrava de nada, nem de si mesma. Faltavam imagens, palavras e até mesmo um nome. O médico a confortou rapidamente dizendo que poderia ser algo passageiro, afinal, a pancada na cabeça havia sido muito forte. Do que mesmo ele falava? Indagava-se ela…

Ele tratou de explicar, contando a ela sobre o acidente sofrido. Ela tinha sido atropelada. Um sorriso tolo surgiu naquele rosto cheio de marcas e inchaços, o motivo? Seu pensamento: “Teria sido pelo destino?” e voltou-se para aquele estranho homem que tentava lhe permitir um instante de lucidez…

Categoriasnovela

Segundo Capítulo…

Junho 17, 2009 Lunna Deixe um comentário

Alguns dias se passaram, as dores diminuíram, os desconfortos agora eram outros, afinal, não saber absolutamente nada sobre si mesma pode não ser a coisa mais agradável do mundo.

Uma estranha veio lhe visitar naquela manhã, ela também tinha as suas linhas de desconfortos e tentava ser gentil diante daquele corpo todo machucado. Tratou de dizer que todas as despesas seriam pagas por ela. Não que isso interessasse naquele momento, mas ela parecia precisar dizer algo e foi só o que surgiu naquele instante. Quis saber como a jovem estava se sentindo, se precisava de alguma coisa, se ela poderia fazer alguma coisa e a jovem só queria saber uma coisa:

_ Quem é você? A pergunta era óbvia, afinal, ela nunca tinha visto aquela mulher em toda a sua vida, ao menos, não que ela se lembrasse.
_ Desculpe, eu deveria ter me apresentado. Meu nome é Cristina Mansur. Fui eu quem atropelou você. Isso aconteceu num daqueles dias insuportáveis que a gente tem na vida onde tudo parece dar errado. Até hoje eu ainda sinto que não deveria ter me levantado da cama naquele dia. Sabe como é isso?
_ Não… A resposta seca por parte da jovem deixou Cristina desconfortável e com um sorriso amarelo. Ela estava ali apenas para evitar maiores problemas, afinal, era uma pessoa pública e cheia de compromissos. Não teria tempo para lidar com processos, idas e vindas a delegacia para maiores investigações. Então estava tentando resolver toda aquela situação de forma breve. Exatamente como havia sido aconselhada.

_ Sei. Bom, você ainda não me disse seu nome…
_ Não. Eu não disse… Porque eu não sei qual é o meu nome. Aqui me chamam de Maria, mas é porque precisavam de um nome para colocar na ficha…
_ Entendo… Não se lembra do acidente? O médico já havia dito a Cristina que ela estava com ausência de memória devido a pancada na cabeça. Enfatizou que havia feito um exame detalhado e aparentemente não havia maiores complicações, mas era preciso aguardar.
_ Não! Eu não me lembro de nada… É estranho, é como se não tivesse nada na minha cabeça. Eu tento pensar em alguma coisa, mas eu não consigo!

Categoriasnovela

Terceiro Capítulo…

Junho 16, 2009 Lunna Deixe um comentário

Aquela situação era muito desconfortável para Cristina que precisava ter o controle de tudo que acontecia a sua volta. Não saber absolutamente nada sobre aquela jovem que havia entrado em sua vida de uma forma tão inesperada era desconcertante. Ela precisava fazer algo e claro que fez…
Algumas horas depois, lá estava sobre sua mesa, uma pasta  cuidadosamente deixada por sua secretaria, onde havia diversas informações sobre aquela jovem:

Zora Lins, dezessete anos, estudante do último ano do segundo grau, funcionária de uma loja de roupas finas há dois anos onde trabalhava meio período. Filha de Amarildo Lins e Maria Silva Lins que não foram encontrados, assim como também não havia sido encontrado nenhum parente próximo.

Tal informação causou um enorme desconforto. Cristina respirou fundo. Abandonou os óculos sobre a mesa e moveu-se de um lado para o outro em sua sala. Por fim voltou a ler o tal documento que continha muitas outras informações. De posse do endereço de Zora – Cristina saiu sem dar maiores explicações. Zora morava em um bairro afastado da área central da cidade…
Uma casa antiga numa esquina, com muros baixos, uma garagem que nunca viu um carro, um jardim abandonado e a sensação de que há anos aquela casa não era habitada por alguém…

Cristina não encontrou uma só pessoa disposta a dar informações sobre as pessoas que moravam ali naquela casa. Tudo que ouviu de uma vizinha foi:  “não sei nada sobre essa gente não senhora“. E nada mais, a mulher a deixou “plantada” no portão e voltou para seus afazeres.

Categoriasnovela

Quarto Capítulo…

Junho 15, 2009 Lunna Deixe um comentário

Ela precisou respirar fundo – estava diante de uma situação inusitada. Seguiu para a loja onde supostamente Zora trabalhava e foi recebida por um senhora elegante e muito educada. Sentiu-se satisfeita por aquela mudança de cenário:

_ Boa tarde. Eu estou a procura de uma jovem cujo nome é Zora…
_ Aconteceu alguma coisa com ela? Estranhou a gerente da loja que a conhecia bem.
_ Aconteceu sim, ela sofreu um acidente recentemente e eu preciso localizar a família dela. Ela está internada há quase uma semana, mas não consegui localizar ninguém…
_  Nossa! Eu sinto muito  – a Zora é uma moça maravilhosa, mas não posso dizer o mesmo da família dela. Ela trabalhou aqui comigo por dois anos e eu adoraria ainda tê-la conosco, mas depois do incidente involvendo a mãe dela, a Zora nunca mais apareceu, nem mesmo para receber o pagamento…
_ Incidente? Inquietou-se Cristina.
_ Sim, a mãe dela veio até loja com o pretexto de ver a filha, mas acabou colocando algumas peças da loja na sacola e foi pega pelo segurança. Ela fez um escandalo horrível aqui. Pobre Zora, ficou tão envergonhada – desculpeu-se milhares de vezes… Foi a última vez que eu a vi. Ela é uma moça muito esforçada. Sabe? Ela era uma das minhas melhores funcionárias. Ganhava bem, mas vivia sem dinheiro. Eu suspeitava que a família explorava ela, mas ela sempre foi muito fechada, nunca ouvi a Zora reclamando de absolutamente nada…

Cristina ficou ainda mais inquieta. Não sabia o que fazer. Algo totalmente novo em sua vida – voltou para seu carro, onde ficou por alguns instantes e por fim decidiu voltar ao hospital a fim de ver Zora que estava se alimentando com ajuda da enfermeira já que um de seus braços estava imobilizado e outro ainda estava dolorido:

_ Como você está hoje? A resposta não veio de Zora que não sentia-se confortável o bastante, veio da enfermeira que fez questão de frizar que ela estava bem melhor, mas o olhar da jovem desmentia aquele comentário, afinal, não era ela quem estava ali naquela cama há dias.
_ Eu tenho novidades pra você: já sei o seu nome, onde você mora, estuda…

Aquela era uma boa notícia? Pensou Zora que seguia sem grandes expressões, apenas ficou ali, ouvindo todas as “novidades”  que Cristina havia trazido com ela naquele fim de tarde. Por um momento Zora ficou totalmente perplexa. Pensou ela “quem em sã consciência daria um nome como aquele para uma pessoa?” Zora? O que será que aquele nome queria dizer? Será que significava alguma coisa? Ela respirou fundo e ficou repetindo pra si mesma aquela nome, várias vezes. O som do próprio nome não lhe agradava. Seu silêncio era desalentador e Cristina seguia esperando por algum comentário da parte dela:

_ Zora Lins… Acho que eu não vou me acostumar com isso. Tem certeza que esse é mesmo o meu nome?

Categoriasnovela

Quinto Capítulo…

Junho 14, 2009 Lunna Deixe um comentário

Cristina Mansur era uma mulher elegante, com um estilo todo próprio. Cheia de convicções e totalmente dedicada a sua família e ao seu trabalho. Casada com Rogério Mansur – um homem que literalmente tropeçou no destino dela. Ele era o homem certo na hora certa… Ela não o amava, mas amor não era exatamente o que Cristina buscava. Ela não tinha tempo para as incertezas de um sentimento. Tinha tempo apenas para tudo que pretendia em sua vida…

A bordo de seus trinta e sete anos, ela havia conseguido muitas conquistas. Não foi um caminho fácil, afinal de contas, a morte de seu pai dificultou muitas coisas. Ela tinha pouco mais de vinte anos, estava cursando o último ano da faculdade quando seu pai adoeceu. Abandonou tudo para cuidar dele e de seus irmãos e fez um excelente trabalho… Fausto formou-se em engenharia, casou-se e teve dois filhos, dois preciosos tesouros para sua irmã que os adorava. Edgar, o caçula, trabalhava na empresa de sua irmã, estava noivo e era um jovem cheio de talentos quando o assunto eram desenhos…

Mas havia alguns exageros naquela família quanto ao controle de Cristina, que determinava cada passo, cada decisão importante naquela família. Absolutamente nada fugia do seu crivo. Ela determinava absolutamente tudo, até mesmo o corte de cabelos a ser feito por cada um deles. A sensação que se tinha era que ela controlava a vida de todos como se fossem parte da empresa de marketing que ela tinha…

Quando estava em sua empresa, ela participava de reuniões, compromissos nacionais e internacionais, mantinha-se atualizada sobre tudo que acontecia no universo. Tinha idéias constantemente e observando-a com mais riqueza de detalhes, percebia-se que seu trabalho na verdade, era uma forma de escape – o meio encontrado por ela para se manter respirando. Para se manter viva sem sentir falta de outras coisas que ela jurava não fazer falta a sua vida…

Seu marido, Rogério, era um homem bonito, charmoso, elegante e que aparentemente, não fazia nada além de jogar tênis no clube quase todos os dias – sair com os amigos quase todas as noites – ser entrevistado por algumas revistas que queriam saber tudo sobre seu estilo de vida: a roupa que estava usando, as festas que freqüentava, as viagens que fazia.

Contudo, o casamento com a dama de ferro do mundo do marketing, há muito tempo não era real. Cristina acabara descobrindo que o homem que ela considerava perfeito para constituir sua família não era assim tão perfeito quanto ela pensava. Ele era esteril – motivo de sua família ser tão pequena. E como para ela a separação não era uma opção, os dois continuavam vivendo na mesma casa… Até dormiam na mesma cama, mas não ia além disso. Era o casamento perfeito para as páginas de revistas… Uma profissional exemplar com um modelo raro de beleza!

Categoriasnovela

Sexto Capítulo…

Junho 13, 2009 Lunna Deixe um comentário

O incidente envolvendo Zora acontecera numa manhã em que nada estava dando certo. Problemas na empresa, com clientes insatisfeitos, problemas com Edgar, uma discussão acalorada com Rogério e os problemas com os filhos de Fausto. Tudo isso resultou numa fuga para as ruas em seu carro. Cristina só voltou a si quando freou abruptamente ao atropelar Zora que havia saído do nada… Uma simples estranha que vôou por sobre o carro de Cristina que ainda levou alguns instantes para perceber o que havia acontecido…

Tão logo percebera a gravidade do acidente acionara o socorro, a polícia. Prestando um rápido atendimento aquela jovem que trazia consigo apenas alguns trocados no bolso. Nada mais…
As coisas pareciam não voltar a normalidade na vida de Cristina. Zora não recuperava sua memória e estava prestes a ter alta. Cristina não conseguira encontrar um só parente da menina e a indiferença com que era tratada pela garota a preocupava. Mas, foi só Cristina respirar fundo e fazer uma pausa num começo de noite ao olhar para o horizonte da cidade paulistana que ela encontrou uma possível solução para aquele problema:

_ Você não pode estar falando sério Cristina. Você não sabe nada sobre essa menina. Ela é uma estranha…
_ Eu não pedi a sua opinião Rogério, eu apenas estou comunicando a minha decisão, algo que nem era necessário, mas achei melhor te avisar para que não tivesse nenhuma atitude incoveniente diante da Zora que não precisa de mais desconfortos do que os que ela já tem…
_ Zora???
_ Exatamente. Eu a atropelei, ela não se lembra de absolutamente nada e eu não consegui encontrar nenhum parente dela. Ela vai ter alta amanhã no final da tarde e eu vou trazê-la para cá. Ponto final.
_ Que fique bem claro que eu não concordo com isso!

Cristina achou graça daquele comentário, cruzou os braços e ficou a admirar aquele projeto mal feito de homem. Chegou a exibir um sorriso de pouco causo devido a um pensamento que lhe ocorreu e por fim ignorou Rogério completamente:

_ Eu vou trabalhar, tenho mais o que fazer que ficar aqui ouvindo as suas bobagens. Mais saiba que se você quiser realmente concordar ou discordar de alguma coisa um dia, primeiro você precisa ter uma casa sua, só para começo de conversa. Tenha um bom dia Rogério Mansur e não esqueça de ser eficiente no jogo de tênis ou na cama com uma das suas vagabundas…

Rogério assistiu Cristina se retirar do alto da sua arrogância. Ele já não a suportava mais. Tinha vontade de arrancar-lhe os cabelos, mas não podia fazê-lo. Ela era a sua única fonte de renda, por isso, ele engolia seco e seguia em compasso de espera, afinal, nada é definitivamente pra sempre…

Categoriasnovela

Sétimo Capítulo…

Junho 12, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora recebera a notícia sobre sua alta do próprio médico que há dias vinha cuidando dela. Estava feliz, mas também estava preocupada. Afinal, sabia tão pouco sobre si mesma, apenas uma ou outra informação obtida através de Cristina, a mulher que havia lhe atropelado, mas nem desse fato ela se lembrava…

Surpresa ficou mesmo ao ver Cristina em seu quarto com uma mochila, onde havia diversas roupas recém compradas:

_ Por que está fazendo isso por mim?
_ Bem, eu atropelei você. O que significa que se não fosse por minha causa, não estaria nessa estranha situação. Então vou cuidar de você até que você se recupere totalmente. Não consegui encontrar nenhum dos seus familiares para fazer isso por você e eu não vou deixar uma menina da sua idade sózinha, sem ter um lugar pra ficar…

O desconforto em Zora parecia ser maior que quando ela estava deitada naquela cama cheia de dores, mas ela não tinha muito o que fazer. Cristina a levou para sua casa, que era uma enorme, cheia de empregados “fantasiados”, belos móveis, inúmeros quadros e objetos de arte espalhados pelos enormes cômodos. O lugar todo lembrava aquelas casas de novelas, cuidadosamente decoradas de acordo com o gosto do personagem. No caso, a personagem atendia pelo nome de Cristina Mansur que pelo que parecia, cuidava pessoalmente do roteiro de sua vida.

O quarto de hospedes fora cuidadosamente preparado para Zora de acordo com as ordens dadas por Cristina que conferiu todos os detalhes antes de ir ao hospital buscá-la. O quarto tinha vista para os fundos da casa, onde ficava uma enorme piscina, a churrasqueira e uma casinha de apoio. Embora tudo parecesse absurdamente confortável, Zora seguia incomodada por estar ali, naquele lugar estranho e sendo ela uma estranha, não apenas para todas aquelas pessoas, mas fundamentalmente para ela mesma. Nem mesmo as palavras de Cristina faziam com que aquela situação fosse diferente:

_ Então, o que achou do quarto?
_ Legal… Acho que a senhora… Zora lembrou-se tardiamente de não chamá-la daquela forma, respirou fundo, deixou transparecer um sorriso amarelecido que exibia um cansaço incomum e uma vontade imensa de estar em qualquer parte do mundo, menos ali: _ Desculpe, eu só acho que você não precisa fazer isso por mim…
_ Eu sei que não é uma situação fácil pra você Zora, mas pense nisso tudo como sendo um período de férias. Você vai receber tratamento e vai se recuperar, então tudo vai voltar ao normal. Tenta pensar da seguinte forma: muitas garotas iriam querer estar no seu lugar…

E que comentário era aquele agora? Afinal, quem iria querer estar no lugar dela? Ela não se lembrava de absolutamente nada sobre si mesma. Pelo pouco que sabia, não tinha pais, tios, primos ou irmãos. Ela não tinha ninguém e ainda estava ali, de favor na casa de uma estranha: _ Eu duvido que alguém iria querer estar no meu lugar, mas tudo bem…

Cristina percebera tardiamente a bobagem que havia dito, mas não iria se esforçar para corrigir tal detalhe. O melhor a fazer era providenciar um lanche, afinal, Zora havia passado os últimos dias com alimentação hospitalar: _ Esquece o que disse. Eu vou descer e pedir para a Denise preparar um lanche pra você. Alguma coisa leve, acho que vai ser bom comer alguma coisa que tenha algum gosto. Fique a vontade, está bem?

Categoriasnovela

Oitavo Capítulo…

Junho 11, 2009 Lunna Deixe um comentário

Cristina parecia insistir em palavras de confortos que não apresentavam nenhum resultado. Zora sentou-se na cama e ali ficou até a chegada de Leonor que viera trazer o lanche para ela. Uma enorme bandeija com frutas, sucos, pães, biscoitos, queijos:

_ Nossa, quanta coisa? Eu nem estou com fome…
_ Mas a dona Cristina pediu para a Denise caprichar. Tenha um bom apetite…

Zora ficou a maior parte do tempo em seu quarto. Estava se sentindo um bicho acoado no meio de tantas pessoas estranhas. Não tirou as roupas novas compradas por Cristina da mala. Não mexeu em nada no quarto. Apenas olhou algumas vezes por entre as frestas da janela e nada mais.

Cristina a encontrou ali, sentada num canto da cama e isso a fez sorrir. Ela sabia o quanto aquela situação era delicada e sabia que precisaria ter paciência com Zora. Notou que ela havia comido pouco:

_ O lanche não estava bom?
_ Estava ótimo, mas eu não estou com fome…
_ Sei. Que tal tomar um banho?
_ Tudo bem!

Cristina sorriu ao perceber que Zora concordava com absolutamente tudo que ela propunha, como se fosse uma ordem a ser executada e ponto final. Não deveria ser assim, mas Cristina tinha certeza de que era algo temporário: _ Você precisa de ajuda para tomar o seu banho?

O comentário feito por Cristina deixou Zora ainda mais desconfortável: _ Não…Obrigada. Olha, eu acho mesmo que eu não deveria ficar aqui. Deve ter alguém que pode ficar comigo. Sabe? Essa é a sua casa e a gente nem se conhece…

Cristina não permitiu que Zora continuasse com aqueles dizeres todos, é claro que ela entendia todo aquele desconforto, mas não iria permitir de forma alguma que ela contraríasse sua decisão que era definitiva e ponto final: _ Zora. Já está feito. Você já está aqui e é aqui que você vai ficar até se recuperar. Não vamos mais falar sobre isso, tudo bem?

Zora engoliu seco ao perceber aquele tom autoritário de Cristina. Sentiu-se ainda mais estranha, mas acatou a ordem dada, mais um pouco e prestaria continências aquela mulher que tratou de escolher as roupas que Zora iria vestir após ao banho…
Cristina ainda observou que Zora precisava cortar os longos cabelos que segundo suas impressões não combinava com o rosto levemente quadrado da jovem:

_ Amanhã mesmo vou levar você ao cabelereiro. Esse corte de cabelo não combina com você. Esconde seu rosto e você deve deixá-lo receber luz pra realçar seus traços. Agora vá tomar o seu banho…

Categoriasnovela

Nono Capítulo…

Junho 10, 2009 Lunna Deixe um comentário

Na manhã seguinte, logo nas primeiras horas, Cristina levou Zora ao cabelereiro. Depois a levou à diversas lojas para fazer compras, a duas escolas para que ela conhecesse a fim de dar continuidade aos seus estudos e por fim foi com ela a um novo médico para fazer novos exames. E finalmente foram almoçar num dos restaurantes favoritos de Cristina:

_ Bem, depois do almoço vou pedir para o motorista levá-la para casa porque tenho duas reuniões importantes e dessas não há como escapar e você vai ter muito trabalho. Tem que arrumar aquele quarto e não quero ver a senhorita trancada lá dentro, esta me entendendo?
_ Estou…
_ Zora, você precisa se lembrar que aquela casa agora também é sua. Ao menos por enquanto. Você não pode ficar vinte e quatro horas por dia trancada no seu quarto. Lá tem piscina, sauna, sala de televisão… Você precisa se divertir um pouco…

Zora voltou para casa depois do almoço. Teve ajuda de Leonor com as compras e percebeu que ela pouco falava. Era paga para cuidar da casa e não para fazer comentários. Ouvia pouco e sorria o tempo todo, aquele sorriso educado de quem ouve mas não escuta. Tudo muito chato – pensava Zora que fora sentar-se a beira da piscina. Aquela parte da casa era muito bonita, tinha mesas e cadeiras confortáveis, som ressoando gostoso por todo o lugar e a água da piscina era muito atraente. Pena que seu braço engessado não lhe permitia um mergulho. Então ela pensou “Será que eu sei nadar?” mas seu pensamento foi logo interrompido pela chegada de Rogério Mansur:

_ Então você é a famosa Zora Lins? A mais nova fantoche da toda poderosa Cristina Mansur…

Zora ficou boquiaberta com aquela figura de homem. Ele estava apenas de sunga e trazia uma toalha no pescoço. Seu corpo todo másculo era impressionante. Rosto quadrado cheio de contornos bem definidos. Cabelos lisos e bem cuidados. Ele era sem dúvida alguma uma bela figura:

_ Vai se acostumando porque ela gosta de dizer o que a gente deve ou não fazer, como e quando fazer…

Isso não era propriamente uma novidade para Zora, as atitudes de Cristina para com ela já haviam deixado bem claro que ela determinava os passos de todos que estivessem a sua volta:

_ Sabe que eu ainda não consegui acreditar nessa sua história de amnésia? Pra mim você não se esqueceu de coisa alguma. Fala a verdade pra mim garota. Você está dando uma de esperta pra cima da Cristina, não é? Mas saiba que você vai se dar mal. Essa mulher é esperteza pura e quando ela perceber, você vai se arrepender pro resto da sua vida…

Zora respirou fundo, em poucos segundos havia mudado de idéia quanto aquele homem. Ele era bonito sim, mas também era um completo idiota: _ Não tenho motivos nenhum para fingir uma coisa dessas. Eu realmente não me lembro de nada, infelizmente…

_ Tadinha dela. Estou morrendo de peninha de você… Mas a mim você não convence com essa carinha de coitadinha e eu vou ficar de olhos bem abertos em você.

Zora ficara invocada com o comportamento de Rogério, se por um instante o tinha achado interessante, agora o via apenas como uma montanha de músculos e nada mais… Ela o deixou lá e voltou para seu quarto, não percebeu o olhar mais atento dele sobre ela.
Rogério a media de cima em baixo e percebeu que ela era uma jovem bonita e “gostosinha”. Com toda certeza ele iria investir seu tempo naquele pedaço de carne…

Categoriasnovela

Décimo Capítulo…

Junho 9, 2009 Lunna Deixe um comentário

No final daquela semana, como de costume, os irmãos de Cristina apareceram para o tradicional almoço de domingo, fato este que deixou Zora ainda mais inquieta. Se pudesse optar, ela não saíria do quarto de forma alguma, mas é claro que Cristina iria apresentá-la a toda a família. Então, depois de vestir as roupas escolhidas por ela, Zora acompanhou Cristina até a sala de jantar, onde ambas eram aguardadas.

Por mais que tentasse, Zora não conseguia entender quais eram as intenções de Cristina, afinal, porque razão ela queria tanto apresentá-la a sua família? Ela era apenas uma estranha que estava ali até lembrar-se de alguma coisa sobre si mesma e então iria embora e provavelmente as duas nunca mais fossem se ver – mas as vezes, quando conversava com Cristina, Zora tinha a nítida sensação de que alguma coisa estava fora do lugar e isso lhe causava um incomodo ainda maior.

Primeiro, Zora conhecera o irmão mais velho de Cristina: Fausto Henrique tinha um olhar triste e era sério demais. Ela não saberia dizer sua idade, mas naquele momento parecia ser um velho descontente com tudo, inclusive consigo mesmo. Ele a cumprimentou com um sorriso bobo e meio amarelado enquanto ajeitava os óculos com um dos dedos. Parecia tão tímido quanto desconfortável. Sua mulher, Heloísa, era alguém que parecia estar na hora e no lugar errado, sempre. Quando ela não estava ao celular com alguma amiga falando sobre coisas “interessantíssimas” estava com os olhos grudados nas folhas de revistas vendo as tendências do momento. Definitivamente ela era muito chata. Zora estava boquiaberta, precisou se esforçar para não rir e ficou tentando imaginar o que aquele homem fazia ao lado daquela criatura das trevas…

Depois foi apresentada aos filhos dele. Os ricos tesouros de Cristina. Eles eram jovens normais, sem grandes diferenças. Um estava antenado as coisas digitais e a outra estava na fase de amigas pelo celular – ao menos nisso, ela se parecia com a mãe, mas somente nisso mesmo. A primeira impressão de Zora era que eles eram legais e nada mais…

Por fim, conheceu Edgar, o caçula. Ele tinha aventuras nos olhos, mas parecia contido pelo braço da noiva que não o largava de forma alguma. Eram dois estranhos caminhando lado a lado. Ele pouco sabia sobre ela e ela sabia menos ainda sobre ele. Mas estavam prestes a marcar a data do casamento. Eram dois estranhos tanto quanto Zora e isso a fez rir pela primeira vez na noite.

Ao comando de Cristina, todos sentaram-se a mesa – inclusive Rogério que lá estava a degustar seu whisky como de costume. Cristina começou seu discurso como a ocasião pedia:

_ Fiz questão de apresentar a Zora a vocês porque como sabem essa menininha entrou na minha vida graças a um desses equívocos do destino. Eu literalmente fui atropelada por ela…

Todos os presentes acharam graça, era como se todos ali seguissem o roteiro pré definido pela “toda poderosa” Cristina Mansur. Zora que parecia alheia a tudo aquilo, só tinha olhos para Fausto e Edgar, estava tentando localizá-los ali em meio a todas aquelas pessoas. Ela observava-os atentamente, em poucos segundos acostumara-se a risada solta de Edgar e ao olhar atento de Fausto que parecia buscar por detalhes, como talheres fora do lugar. Era engraçado observá-los – vez ou outra ela corria os olhos pela mesa e avistava Rogério, a quem ela chamava de pulha. Ela não gostava daquele ar arrogante que parecia ser sua marca registrada. Não conseguia entender porque Cristina havia se casado com um homem igual aquele…

Por fim ouviu o tirintintar das taças e sorriu para satisfazer Cristina. Zora não havia percebido, mas já fazia parte daquele cenário onde até mesmo um sorriso precisava existir na hora certa…

Categoriasnovela

Décimo Primeiro Capítulo…

Junho 8, 2009 Lunna Deixe um comentário

A semana seguinte começou com novidades. Dois investigadores vieram à casa de Cristina para falar com Zora – a surpresa era que eles tinham encontrado os pais dela. Primeiro conversaram com Cristina que ficou temerosa em relação à conversa deles com a jovem que poderia não reagir bem diante da notícia que eles tinham para ela – mas de alguma forma ela ficaria sabendo do ocorrido, mais cedo ou mais tarde, então seria melhor contar logo de uma vez.

Assim que Zora adentrou no escritório, Cristina a fez sentar-se ao seu lado, de frente para os policiais o que serviu para deixá-la apreensiva:

_ Zora, nós localizamos os seus pais, mas infelizmente eles estão mortos. Ainda não podemos te dizer muita coisa, mas a primeira vista parece que seu pai matou sua mãe e depois se matou. Mas nós ainda estamos investigando o caso. Só soubemos que eram seus pais há pouco.

Zora ficou sem saber o que pensar. Não sabia o que sentir exatamente. Não se lembrava deles, então não havia muito o que sentir. Só ficou apreensiva ao lembrar que agora não havia pessoas que pudessem lhe dar maiores informações sobre quem ela era: _ E o que vai acontecer comigo agora? Porque eu não sei nada sobre mim. Quem mais pode ter informações sobre quem eu sou? O que eu devo sentir sobre isso? _ Calma Zora. Eu sei que não deve estar sendo fácil pra você, mas não se preocupe com isso agora…

_ Mas eu tenho que me preocupar.
_ Zora. Nós acreditamos que você possa ter presenciado o ocorrido com seus pais, por isso acabou sendo atropelada pela senhora Cristina Mansur. Foi ela, mas poderia ter sido qualquer outra pessoa. Achamos que você estava em estado de choque…
_ Como assim?
_ Conversamos com algumas pessoas que disseram ter visto você correndo de forma pouco comum no dia em que foi atropelada. Algumas pessoas disseram que você parecia desesperada. Você foi vista entrando num ônibus em direção ao centro. É tudo que sabemos, mas não se preocupe porque estamos investigando, ok?

Era muita informação para um só dia. Zora estava se sentindo zonza, parecia que iria ficar sem ar a qualquer momento. Aquele escritório tinha ficado tão pequeno de repente. Já não conseguia mais ouvir o que eles estavam falando. Tinham perguntas a fazer, mas as respostas pareciam não existis. Por um instante ficou em dúvida sobre o que eles estavam dizendo e entrou em pânico: _ Por que eu estaria em choque? Acham que fui eu?
_ Zora, você precisa se acalmar. Eles estão investigando o que aconteceu com seus pais. Está bem? Por enquanto é apenas isso…
_ A senhora Cristina tem razão Zora, nós Só viemos aqui porque descobrimos que as duas pessoas assassinadas eram seus pais…

Categoriasnovela

Décimo Segundo Capítulo…

Junho 7, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora começou a chorar compulsivamente e Cristina tratou de levá-la para o quarto pondo fim aquela conversa. E lá ela ficou o dia todo, até a visita de Rogério no começo da noite, ele trazia consigo um sorriso desconcertante. Entrou de mansinho e ficou a observá-la: _ Você não me engana garota. Não mesmo… Armou tudo direitinho, não foi? Aposto que seu nome nem é Zora. Vai garota, fala comigo…

_ Por que não me deixa em paz? Eu quero ficar sozinha.
_ Nossa! Que coisa mais meiga, mas eu já te disse que essa sua carinha de coitda não me convence. Não mesmo. Você deve saber muito bem quem é Cristina Mansur e deve ter se jogado de propósito na frente do carro dela…

Zora levantou-se de supetão e encarou Rogério. Ela estava com tanta raiva naquele momento. Mas não era bem dele. Era de sua vida, aquela estranha vida desconfigurada, onde nada fazia sentido: _ E fiz o que? Adivinhei como por enquanto que a sua mulher iria me trazer para dentro da casa dela?
_ Não! Claro que não. O plano deveria ser outro, não é?
_ Plano? Você nem faz força pra ser um idiota, não é?
_ Olha como fala comigo menina. E pensando bem, aposto como você nem é menor de idade – o que deixa você muito mais interessante…
_ O que?

Rogério aproximou-se de Zora com aquele olhar de caçador diante da presa, o que a deixou ainda mais irritada. Ela se desvencilhou dele, foi até a porta e pediu para que ele saísse: _ Sai daqui agora. Eu tenho nojo de gente como você…

Ele apenas sorriu com aquele ar de quem realmente não se importa com o tipo de sentimento que causa no outro. Respirou fundo e optou por sair, afinal, ele ainda iria voltar aquele quarto muitas outras vezes. Ele adorava mulheres difícies: _ Melhor isso que nada, não acha?

Categoriasnovela

Décimo Terceiro Capítulo…

Junho 7, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora pouco saíra de seu quarto. Estava com a cabeça povoada por milhares de pensamentos e absolutamente nada parecia fazer algum sentido para ela. Ela andava de um lado para o outro, às vezes chorava, às vezes lhe faltava o ar. Às vezes o desespero lhe fazia ter pensamentos impróprios e a pergunta que ficava em seu avesso era “será que eu os matei? Mas por que eu faria algo assim?” E a resposta não vinha…

Cristina veio até o quarto de Zora naquela manhã e a encontrou diante da janela a olhar o horizonte. Parecia desorientada e isso a consumiu rapidamente. Não iria permitir que ela ficasse ali se martirizando. Fez com que ela tomasse um banho demorado, esfregou as costas dela, escolheu as roupas e aguardou ansiosamente que ela ficasse pronta. As duas saíram juntas, foram para o parque do Ibirapuera, onde caminharam até as proximidades do lago e lá se sentaram em baixo da sombra de uma árvore. O momento estava lindo e quase perfeito:

_ Fazia tanto tempo que eu não vinha a esse parque e olha que era um dos meus lugares favoritos nessa cidade. Meu pai costumava nos trazer aqui para brincar. Ele vinha com sua cadeira de praia, livros, água e uma garrafa térmica de chá. A gente corria por todos os cantos enquanto ele lia seu livro e fazia palavras cruzadas. Adorava vir até aqui…

Zora estava surpresa com aquela novidade. Até esqueceu-se de seus dilemas. Sabia tão pouco a respeito daquela mulher e de repente viu-se diante da possibilidade de conhecer a verdadeira face de Cristina Mansur, não da empresária famosa e sim da mulher que havia por trás de tudo aquilo. Naquele momento, Cristina parecia mais humana para Zora:

_ Eu não sei praticamente nada sobre você. Somos duas estranhas, mas ao menos você tem uma história para contar…
_ Tenho. Mas não é uma história para ser contada. Tem poucas coisas bonitas na minha vida. Meu pai foi uma das coisas mais bonitas da minha história. Ele é um capítulo a parte… Um capítulo que teve um final tão difícil, tão dolorido… Eu me lembro de ver o meu pai, o meu herói tão doente, tão debilitado na cama e não havia nada que pudesse ser feito por ele. Eu nunca me senti tão impotente diante de algo… Quando ele morreu, eu disse pra mim mesma: acabou. E ainda hoje eu não sei o que senti naquele momento. Eu não saberia te dizer se eu estava feliz ou triste…
_ Acho que eu te entendo porque descobri que meus pais estão mortos e não sei o que eu devo sentir com relação a isso. Não sei se devo ficar triste, feliz ou se eu não tenho que sentir coisa alguma. É estranho… Não pense que eu estou comparando a sua história com a minha – não é isso.
_ Eu sei disso. Cristina segurou firma à mão direita de Zora, respirou fundo e por um instante tentou entender aquele momento. Fazia anos que ela dedicava-se exclusivamente aos outros e de repente, ali estava ela, pensando apenas nela: _ Antes do meu pai ficar doente, eu tinha milhares de planos – queria concluir meus estudos, conquistar um lugar ao sol, me apaixonar, casar, ter filhos. Eu queria muito ter uma família grande…
_ Mas porque você não tem filhos?
_ O Rogério não pode ter filhos, então o tempo foi passando, meu irmão teve os filhos dele e logo o Edgar também terá os seus e eu fiquei pelo caminho. Tinha outras opções como adotar uma criança, mas não seria a mesma coisa, porque eu queria um filho meu… Eu queria sentir tudo que uma mulher sente quando tem um filho. Mas isso não faz mais diferença pra mim. Hoje eu não teria mais paciência pra cuidar de um bebê, ficar acordada a noite, trocando fraldas, dando mamadeira. Acho que eu preciso de algo mais sóbrio…

Zora pouco entendeu de tudo aquilo, afinal, como a maternidade poderia ser algo sóbrio? _ Você ainda pensa em ser mãe?
_ Claro que sim, principalmente nesses últimos dias. Pode até parecer loucura, mas eu tenho sentido que você é um verdadeiro presente pra mim.
Zora ficara em silêncio. Estava boquiaberta. De repente entendera muito bem o que Cristina pretendia e isso a deixou um pouco assustada:
_ Você perdeu seus pais, não tem familiares e eu tenho muito pra te oferecer. Então pensei que talvez você aceitasse ser adotada por mim. O que me diz?

Zora estava pasma. Tentava dizer algo, mas não conseguia, as palavras estavam distantes de sua boca. O que ela achava daquela proposta? Era mais uma pergunta sem resposta. Cristina estava ali, bem diante de seus olhos, com aquele olhar ansioso, típico de quem espera uma resposta, mas como Zora poderia dizer algo a ela sem nem mesmo saber quem ela era?

_ Eu não sei o que dizer a você. Eu nem faço idéia de quem eu sou e você tão pouco. E se eu for uma pessoa horrível? Se eu tiver feito algo de terrível, como matar os meus próprios pais?
_ Você não fez isso. Eu sei. Meu coração me diz isso. E quando eu olho pra você, sabe o que eu vejo? Uma segunda chance, tanto pra mim quanto pra você. Como se a vida estivesse nos presenteando com algo inusitado. Você esqueceu-se de tudo e pode começar do zero, do nada e eu posso ter a filha que eu tanto sonhei em ter… Zora me deixa ser sua mãe, me deixa cuidar de você…

Categoriasnovela

Décimo Quarto Capítulo…

Junho 6, 2009 Lunna Deixe um comentário

Cristina estava se sentindo eufórica, mesmo sem a resposta de Zora quanto ao seu pedido. Ela compreendia e aceitava bem aquela demora, afinal, não deveria estar sendo fácil para uma menina de apenas dezessete anos. Mas isso não a impedia de agir no sentido de criar um espaço “Zora” naquela casa. Logo pela manhã chamou a decoradora, mostrou-lhe o quarto e deu todas as instruções quanto ao que pretendia…

Rogério observava atentamente de longe. Não estava satisfeito, mas Cristina não lhe dava atenção alguma, nem mesmo reparava sua cara de insatisfação. Fazia tempo que era como se ele nem ocupasse o mesmo espaço físico que ela, assim sendo ele foi para o clube jogar tênis, onde encontrou os mesmos amigos de sempre com quem bebia whisky logo pela manhã. Também encontrou algumas garotas com belos sorrisos, interessadas em belos carros, em belos homens com suas belas contas bancárias… Rogério era um playboy acostumado a “boa vida”, mas que também andava inquieto quando o assunto a mesa era a senhora Cristina Mansur de quem ele herdara o sobrenome, afinal, quem era Rogério Santos Junior? Um ilustre ninguém. Rogério Mansur era um nome importante, figura conhecida nas páginas sociais, nas grandes festas, nos grandes acontecimentos da cidade paulistana…

Ele voltou para casa apenas no final da tarde e lá encontrou Cristina, Fausto e Edgar brindando a resposta de Zora que claro, havia aceitado ser adotada por Cristina. Rogério não se envolveu com aquela patética cena. Cumprimentou a todos como de costume. Ele não gostava daqueles dois panacas, capachos da “toda poderosa” – com toda certeza não estavam satisfeitos com a adoção daquela menina, mas não ousariam dizer uma só palavra…

Enquanto subia as escadas, ele ouviu Fausto perguntar a Cristina se ela tinha certeza do que estava fazendo e claro que atrasou o passo a fim de ouvir a resposta:

_ Claro que tenho Fausto – eu sempre quis ter uma filha e agora ganhei esse presente. Eu sei que ela não se lembra de coisa alguma, está confusa. Mas sabe quando algo em você te diz que é exatamente isso que deve ser feito?
Claro que era assim, ela sempre ouvia a si mesma e a ninguém mais. Mandava em tudo e em todos e a tal da Zora era apenas mais uma na família para receber ordens e seguir o padrão Cristina de ser. Rogério respirou fundo e teve um pensamento indelicado. Não foi para seu quarto e sim para o quarto de Zora que estava sentada sobre a cama lendo uma revista, mas viu quando Rogério entrou com seu ar de “eu sou gostoso”:

_ Você de novo?
_ Eu vejo que você fica muito empolgada quando me vê. Eu gosto disso. Faz tempo que eu não tenho trabalho para conseguir uma garota. Mas eu sei também que bem lá no fundo você está a fim de se jogar nos meus braços e me deixar fazer com você coisas que te levariam a loucura. Não é?
Zora respirou fundo, lembrou-se que ele era casado com a mulher que decidiu adotá-la, o que significava dizer que iria ter que aturá-lo. Mas bem lá no fundo não sabia se iria ter paciência para isso: _ O que você quer Rogério?
_ Você. Quero tirar sua roupa todinha…
_ Ai Rogério, sem comentários!
_ Mas hoje eu só quero te dar os parabéns, afinal, você conseguiu o que queria. Dona Cristina Mansur agora é a mamãe da dona Zora… Ela está lá em baixo comemorando o fato. Fiquei tão comovido. E já que ela é a sua mamãe, o bonitão aqui vai ser o seu papai? O que significa dizer que você tem que me obedecer…

Zora não conseguiu conter o riso, que misturava indignação e nervosismo ao mesmo tempo. Ele poderia ficar sem língua naquele momento e então ela estaria feliz, mas não, ele continuava com sua língua e continuava a dizer bobagens. Realmente era impossível entender como uma mulher como Cristina era casada com uma figura daquelas:

_ Não se preocupe Zora, eu não tenho pressa. Eu vou esperar e sei que você vai vir correndo pra mim na hora certa e então menina, eu vou fazer com você tudo que eu quiser e pode apostar que você não é capaz sequer de imaginar tudo que eu pretendo fazer com você…

Categoriasnovela

Décimo Quinto Capítulo…

Junho 5, 2009 Lunna Deixe um comentário

Cristina fez Zora prometer que iria encarar aquele momento como uma segunda chance, para as duas e por mais preocupada que estivesse – Zora aceitou olhar para aquilo tudo com aquele olhar. Tentava evitar pensar no que havia acontecido com seus pais. Tentava se ver como filha da Cristina e viver aquela sua nova realidade…

Seu quarto ficara pronto. Estava do jeito que Cristina achava que tinha que ser o quarto de uma adolescente: computador, cama, mesa, som, televisão, livros, muitas roupas, muitos calçados. Tudo em quantidade exagerada. E Cristina não parava – cada dia comprava mais e mais coisas para Zora.

A própria realidade de Cristina foi alterada, ela passou a ter horários menos intensos no trabalho. Estava passando mais tempo em casa, muito mais tempo em lojas, restaurantes. Buscava Zora todos os dias na escola. A levava ao médico e passeava com ela pelos quatro cantos da cidade, sendo que o favorito até aquele momento era o Parque Trianon. Zora sentia-se bem lá, era como se o mundo inteiro ficasse do lado de fora daquele lugar e nada pudesse acontecer com ela:

_ Você está feliz de estar aqui…
_ Estou sim. Mas ainda tenho medo que isso tudo seja apenas um sonho e eu acorde de repente…
_ Isso não vai acontecer Zora. Não mesmo… Agora você está aqui, comigo e eu vou cuidar de você. Está bem?

Zora ficou com os olhos cheios de água, uma sensação não muito agradável percorreu suas veias, como se pressentisse algo que estava para acontecer. Cristina percebeu aquele olhar perdido e tratou de envolvê-la num abraço:

_ Minha menina, nada de ruim vai te acontecer porque eu não vou deixar. Eu sou muito boa em cuidar das pessoas. Pode confiar em mim…
_ Mas eu confio em você!
_ Ótimo… É muito bom saber disso!

Zora e Cristina seguiram o passeio grudadas uma na outra. Elas pareciam realmente mãe e filha num reencontro que por alguma razão já deveria ter acontecido anos antes…

Categoriasnovela

Décimo Sexto Capítulo…

Junho 4, 2009 Lunna Deixe um comentário

No final da tarde, Cristina levou a “filha” para o clube – fazia anos que não colocava os pés naquele lugar. Rogério estava lá, rodeado por mulheres jovens. Zora não acreditava no que via enquanto Cristina nem mesmo notara a presença dele ali, a beira do balcão do bar, copo de whisky em mãos e dizeres silenciosos junto à orelha de uma garota que ria de forma desconcertante. O destino das duas foi à piscina, onde estava à mulher de Fausto, que não largava as revistas e tão pouco o telefone. Pouco tempo depois chegou Fausto que sempre vinha para o clube a fim de relaxar um pouco, lá ele jogava um pouco de tênis e sentia-se melhor para os dias seguintes. Encontrar sua irmã ali foi à novidade do dia:

_ O que faz aqui Cristina?
_ Vim trazer a Zora para conhecer o clube e aproveitar para providenciar a documentação para que ela possa vir aqui sempre que quiser…
_ Legal. O que está achando do clube Zora?
_ Parece ser legal…
_ Quer conhecer a quadra de tênis? Eu estou indo pra lá…
_ Vá com ele Zora…

Fausto era um cara calmo, tranqüilo, de uma lucidez tão intensa. Ela gostava daquele olhar atento dele. Embora o tivesse visto poucas vezes, não se lembrava de como era o seu sorriso, talvez porque nunca o tivesse visto sorrindo. Ele estava sempre tão sério, às vezes achava que ele nunca estava em si mesmo:

_ Posso te dizer uma coisa?
_ Claro, fique a vontade para me dizer o que você quiser…
_ O seu nome não se parece em nada com você, sei lá, quando eu ouço alguém te chamando de Fausto, parece que estão chamando outra pessoa…
_ Entendo. Mas eu também não gosto desse nome, prefiro Henrique, mas a Cristina gosta mais de Fausto, então é assim que todos me chamam…

Aquela resposta foi desconcertante. Ela parou no meio do caminho e tentou entender aquilo tudo. Ele voltou-se para ela na tentativa de entender aquela reação, mas não precisou perguntar:

_ Henrique. Gostei…

O olhar dos dois se encontrou e de repente lá estavam eles sorrindo de forma intensa para surpresa de Zora que ficou encantada com aquele sorriso. Ela tinha apenas dezessete anos, não se lembrava de nada sobre si mesma, mas jamais iria esquecer aquela sensação. Era já sabia como era amar alguém…

Zora ficou ali a observar Fausto, que agora – para ela, era Henrique… Em sua mente ele era totalmente diferente em algumas coisas: aquele corte de cabelo não combinava com ele, tão pouco a barba e o bigode que o deixavam tão sério. Ele ficava bem naquelas roupas esportes, mas quando estava de terno parecia um ET… Naquele momento, tudo que ela mais queria, era conhecê-lo melhor, saber mais coisas sobre ele e ali, a observá-lo, de repente ousou pensar que  talvez fosse capaz de desvendá-lo apenas observando-o e isso a fez rir de forma tão singular. Um sorriso gostoso, calmo, tímido, tolo…

Quando ele a convidou para jogar, ela ficou totalmente sem graça. Pensou consigo mesma que jamais iria conseguir acertar aquela bendita bolinha miniscula. Sabia disso, mas lá foi ela para a quadra, tão atrapalhada quanto empolgada. Henrique mostrou como teria que segurar a raquete, onde teria que acertar a bolinha, além de dar diversas dicas a ela, mas tudo aquilo só serviu mesmo para fazê-la rir:

_ Do que está rindo Zora?
_ Eu sei que consigo fazer qualquer coisa, menos acertar essa bolinha…
_ Você ainda nem tentou, como sabe que não consegue? Vem cá, deixa eu te mostrar como se faz isso…

Ele a posicionara diante dele, envolvendo-a com seus braços enquanto ela segurava a raquete e sentia o calor do corpo dele. Não resistiu, precisou fechar os olhos para melhor sentir aquele momento, quase se esqueceu que estava em uma quadra de tênis e quase se esqueceu também que ele era casado, tinha filhos e tudo mais. E foi justamente essa lembrança que a devolveu rapidamente aquele lugar. Tentou não pensar mais naquilo tudo e dedicou-se a entender os mistérios profundos de uma raquete e sua pequena bolinha, mas sempre que via aquele belo sorriso de Henrique, se perdia:

_ Em que estava pensando?
_ Em você… Acho que fica diferente em alguns momentos…
_ Diferente como?
_ Sei lá… É que você parece estar sempre tão sério. E agora parece tão normal.
_ Normal?
_ Como se realmente fosse você e não uma outra pessoa, entende?
_ Eu acho que sim… Como isso é possível? A gente nem se conhece praticamente. Nos falamos rapidamente e você já fala como se me conhecesse há anos e o pior é que não está falando nenhuma bobagem…
_ Não?
_ Não. Eu odeio meu trabalho. Então quando eu saio daquela maldita empresa e deixo lá todos aqueles malditos projetos que levam o meu nome – eu me sinto exausto. Toda sexta-feira eu penso em sair de lá e nunca mais voltar… Mas sempre volto na segunda-feira e ainda tem o meu casamento, com aquelas pessoas que são… Ele precisou respirar fundo, nem conseguia entender a razão de estar dizendo todas aquelas coisas para aquela menina, que tinha idade para ser sua filha. Ela era uma estranha e no entanto, lá estava ele se confessando a ela: _ Eu não os conheço. Não faço idéia de quem são e ainda assim são meus filhos e minha esposa… Essa é a minha vida senhorita Zora…

Categoriasnovela

Décimo Sétimo Capítulo…

Junho 3, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora não ficou surpresa, lamentou cada palavra ouvida, mas bem lá no fundo desejava fazer alguma coisa, só não sabia exatamente o que: _ Por que não gosta do seu trabalho?

_ Porque eu sempre quis ser piloto, desde criança. Eu tive um kart. Eu e meu pai montamos. Ele me levava para a pista e lá eu me sentia o dono do mundo.

Quando eu sentava naquele carrinho, colocava o capacete, ali eu era eu mesmo. Por isso fiz engenharia, porque eu queria construir carros, pilotar um – só que nunca pensei em ficar sentado atrás de uma mesa cheia de projetos de pontes e máquinas… Mas é o que eu faço.

_ Mude!
_ Por favor Zora. Eu não sou mais um garoto. Olha pra mim. Eu já sou velho demais para correr atrás de sonhos…
_ Nossa! Você não é velho e acho que nunca somos velhos o bastante para correr atrás de um sonho. Acho que sempre há tempo para isso e acho também que se a gente não correr atrás dos sonhos, mais cedo ou mais tarde a gente acaba se arrependendo por não ter feito isso… E sabe o que é engraçado?
_ O que?
_ Eu estar aqui te dizendo todas essas coisas. Fiquei com uma sensação tão esquisita – porque olha só, eu nem sei se eu tinha algum sonho. Como todo mundo tem sonhos na vida, acho que eu também deveria ter os meus, não acha?

Do lado de lá veio um abraço carinhoso, um cafuné na cabeça e a rápida mudança de assunto para evitar que a tristeza tivesse lugar naqueles belos olhos de menina: _ Que tal a gente ir tomar um suco? Afinal, você não vai virar profissional do tenis em meia hora, não é mesmo?

Categoriasnovela

Décimo Oitavo Capítulo…

Junho 2, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora já não conseguia deixar de pensar em Henrique, vivia com o olhar nas nuvens, com um sorriso ingênuo nos lábios e claro que Cristina percebeu aquela significante mudança repentina. Só não sabia ainda a razão, mas é claro que isso era apenas um detalhe, afinal, nada passava desapercebido por ela:

_ Estou olhando para alguém que parece ter conhecido um príncipe encantado. Estou certa? Algum garoto lá da escola?

A pergunta feita por ela fez Zora sorrir ainda mais. Garoto da escola? De onde ela teria tirado uma idéia tão absurda quanto aquela? Enfim, ela era a toda poderosa Cristina Mansur e iria precisar de uma resposta urgentemente  ou não descansaria enquanto não conseguisse e claro que a resposta precisava ser totalmente convincente:

_ Estou amando Mário Quintana. Seus versos são tão lindos. A gente começou a estudá-lo essa semana. Olha, eu não sei se eu lia poesia, mas sei que eu vou ler mais e mais. Você gosta de poesia Cristina?

Cristina ficou mais aliviada com aquela resposta, era tudo que precisava ouvir, não estava preparada para uma paixão adolescente cheia de rompantes, altos e baixos. Queria a atenção de Zora apenas para ela o máximo de tempo possível: _ Não muito. Eu nunca fui de ler coisas que fugissem da minha realidade e poesia nunca fez parte do meu universo, quem sabe você não me faz mudar de idéia…
_ Excelente idéia e eu vou começar agora mesmo. Vou ler um dos poemas dele que eu amei:

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite!Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Cristina pouco compreendeu daquela poesia, embora tenha gostado de ouvir Zora lendo para ela. Mas a diversão durou pouco, a empregada veio avisar as duas da presença de um investigador que estava no escritório aguardando por Zora. Notícia que deixou a menina aflita de imediato, afinal, o que um investigador de polícia poderia querer com ela?

Leonel estava investigando a morte dos pais de Zora. Ele era um homem de poucas palavras, atento a tudo, rude e que tinha uma certeza, Zora sabia quem havia matado seus pais: _ Boa tarde senhora Cristina Mansur – meu nome é Leonel Prudente, desculpe ter vindo dessa forma, mas o assunto é urgente.

_ De que se trata senhor Leonel?
_ Eu fiquei sabendo que a menina Zora Lins estava aqui em sua casa e vim conversar com ela sobre a morte dos pais biológicos dela. Já soube que ela não se lembra de coisa alguma sobre a vida dela, mas precisava ter certeza disso porque creio que ela pode saber o que realmente aconteceu com eles…

Zora estava inquieta, suas mãos estavam frias e a figura daquele homem lhe causava certo pânico. Era fato que ele não iria lhe fazer nenhum mal, mas não ter respostas para tantas perguntas a incomodava e saber que eram justamente respostas que ele queria era um tortura: _ O que aconteceu com eles senhor Leonel?
_ Estamos trabalhando na hipótese de assassinato e acredito que a sua amnésia talvez seja resultado de algo que você tenha feito ou visto…
Zora estava boquiaberta, seus olhos de repente inundaram-se e ela engoliu seco. Um riso nervoso e descompensado tomou conta dela. Ela havia ouvido direito “algo que ela tenha feito ou visto”: _ O senhor acha que eu posso ter matado meus pais? É isso…

Cristina não gostou do rumo daquela conversa e tratou de interferir: _ Claro que não Zora. Imagina, você não seria capaz de algo desse tipo. Ele é um investigador e precisa seguir todas as possibilidades para descobrir o que realmente aconteceu. Por isso é que ele está aqui… Não fique preocupada, está bem?
_ A verdade é que a gente não tem nenhuma pista quanto a quem fez isso. Não conseguimos nenhuma testemunha que tenha visto ou ouvido alguma coisa. Sabe como são essas coisas? As pessoas não querem se envolver e dificulta o nosso trabalho. Mas eu acho sim que a única pessoa que pode elucidar esse caso é você menina…

Categoriasnovela

Décimo Nono Capítulo…

Junho 1, 2009 Lunna Deixe um comentário

No dia seguinte, Zora acompanhou Cristina até sua empresa, afinal, ela precisava conhecer a rotina de uma das mais importantes publicitárias do país. A rotina de Cristina começava bem cedo, quando chegava à empresa, por volta das nove horas da manhã, já encontrava sua agenda sobre a mesa com toda a sua programação. Reuniões longas com clientes, apresentações de propostas feitas por ela, apresentações de produtos feitas por clientes. Visitas as inúmeras salas que havia naquela empresa para verificar de perto o conceito que estava sendo desenvolvido para os mais diversos produtos que eles ajudavam a vender.

Dentre tantos profissionais, lá estava Edgar, o rapaz de belos olhos tristes, aliás, aquela parecia ser a marca registrada daquela família. Ele era desenhista e um dos responsáveis por dar vida às muitas idéias de Cristina. Ele ficou feliz ao vê-la e tratou de lhe mostrar todo o seu trabalho.

Edgar era realmente uma fera engaiolada. Aquela sala parecia deter suas ações. Toda aquela organização de objetos a sua volta parecia ser fragmento de uma realidade que não lhe pertencia. Ainda assim, ele vivia aquilo tudo:

_ O que está olhando?
_ A vista desse lugar. Faz-me querer abrir os braços e imaginar o tamanho de um sonho…
_ Nossa! Isso foi poético. Sabe que eu nunca reparei a vista daqui? Não gosto de ver a cidade por esse ângulo. Gosto de sentí-la estando no meio de suas entranhas. De estar lá embaixo, no meio de toda aquela gente, sentindo o toque, o cheiro, os sons, as cores. Daqui tudo parece muito cinza e nem parece que tem gente lá embaixo… Eu gosto mesmo é do calor humano e daqui é tudo muito frio…
_ Entendi… O que você está fazendo?
_ Estou trabalhando numa idéia nova do pessoal lá de cima. A minha irmã tem várias equipes de criação. Cada uma delas envia pra cá um material diferente. Resumindo: eles deliram e eu tenho que dar um jeito de tornar real o que eles mandam pra cá. Todo mundo cria com computadores hoje em dia, mas eu não sou fã disso. Eu ainda gosto do contato com a folha, do cheiro do grafite no papel e da visão que eu posso ter conforme vou criando traços e retas. No computador é tudo muito indiferente. Nem parece que sou eu quem cria, sabe?
_ Eu me apaixonei por esse lugar. Muito legal criar coisas o tempo todo, ainda que seja com o computador. Adorei o trabalho da sua irmã. Queria ter idéias assim…
_ Mas você pode ter. Por que não pergunta pra ela se você pode fazer um estágio aqui? Eu tenho certeza que ela vai amar a idéia e depois você pode escolher publicidade como curso na faculdade. Você já está no segundo grau. Em breve vai ter que escolher uma carreira para seguir e se você gostou daqui já é alguma coisa…
_ Acha mesmo que ela iria gostar dessa idéia de estágio?
_ Claro que sim – até porque ela vai poder controlar seus passos de forma mais intensa e isso vai deixá-la radiante. A dona Cristina Mansur adora controlar tudo e todos a sua volta. Edgar exibiu um tom de desconforto naquelas palavras, mas não foi muito adiante. Voltou a trabalhar sobre o olhar atento de Zora que ficou ali com ele por um bom tempo e quase se esqueceu de seus problemas.

Depois que terminou seu trabalho, Edgar acabou convidando Zora para um passeio de moto que foi prontamente aceito por ela. Ela que não se lembrava de ter andando de moto antes, adorou sentir o vento e ver as ruas ficando para trás como se eles fizessem parte do vento. Por fim, pararam numa lanchonete para fazer um lanche. Ele estava menos tenso e aquela tristeza no olhar tinha desaparecido. Parecia eufórico em alguns momentos quando falava de seus sonhos:

_ Sabe o que eu gostaria de fazer com a minha vida realmente? Sair pelo mundo sem destino. Apenas eu, minha moto e uma mochila. Nada mais. Conhecer lugares, trabalhar ali e aqui por algum tempo. Desenhar pessoas numa praça, num bar. Sei lá… Não ter lar, nem país. Viajar de navio e apreciar a grandeza dos oceanos. Sou apaixonado por garças e aquele vôo sensacional que elas têm. Quando morrer eu quero renascer numa garça…
_ Se quer tanto isso, porque não pega suas coisas e saí por aí? Sem destino como você disse…
_ Não é tão simples Zora. Eu tenho compromissos, estou noivo. Tem a minha irmã e tudo que ela fez por mim e pelo irmão. Não sei o que teria acontecido com a gente se não fosse ela. A Cris foi muito forte, abandonou os sonhos pra cuidar da gente e ela fez um excelente trabalho.
_ Acha mesmo?
_ Claro que sim. Nós somos pessoas de bem. Temos nossa casa, uma profissão, o Fausto tem a família dele e eu logo vou ter a minha… Edgar precisou respirar fundo, o desconforto havia voltado. Era visível que ele não era feliz com aquela vida que parecia ser de outro e não dele… Mas ele parecia conformado em ter tão pouco que nem se dava conta que algo nele morria dia após dia.

Categoriasnovela

Vigésimo Capítulo…

Maio 31, 2009 Lunna Deixe um comentário

Edgar ainda levou Zora ao seu apartamento, onde ela pode ver de perto um pouco de sua realidade. Achou graça de toda aquela bagunça. Com toda certeza Cristina não o visitava ou teria ela uma síncope diante de toda aquela desorganização. O sofá tinha coisas esquecidas ali nos últimos anos. A mesa reunia centenas de revistas e jornais – todos amontoados. A cozinha tinha milhares de pratos, copos e talheres por lavar. O quarto parecia uma caverna onde tinha uma mesinha pouco organizada onde ele rabiscava desenhos vários e para sua surpresa, Edgar havia rascunhado sua imagem:

_ Sou eu?
_ Decorei seu rosto no dia em que te vi naquele jantar…
_ Sério? Mas você me viu tão pouco!
_ E de quanto tempo você acha que eu preciso para decorar um rosto?
_ Não faço idéia…
_ Bem pouco mesmo e o seu rosto ficou na minha lembrança e quando cheguei aqui, fiz alguns rabiscos e pronto. Mas não dei acabamento porque eu acho que você é uma figura assim: inacabada, ainda por construir. Tem belos olhos.
_ Você acha?
_ Claro. Seus contornos são suaves e ao mesmo tempo são firmes e precisos. É como se alguém tivesse desenhado ou esculpido você.
Zora ficou sem graça por um breve instante enquanto apreciava Edgar despir a calça e vestir um calção mais largo, mais a vontade. Abandonar os sapatos e as meias, ficando descalço. Ele tinha essa estranha mania de abandonar as coisas pelo caminho e isso a fazia rir:

_ Do que está rindo?
_ Da sua forma de caos. Não sei como consegue se achar aqui dentro…
_ Mas quem disse que eu me acho? Esse lugar existe pra que eu me perca, afinal, eu preciso me perder de alguma forma. Quando eu estou fora daqui, eu sei o que eu sou e vai por mim, não gosto do que eu sou lá fora.
_ Então porque você não começa a se achar aqui dentro ao invés de se perder lá fora?
_ Eu já te disse que não é tão fácil assim… Tem tantas coisas Zora.
_ Quer saber? Eu acho que isso é uma desculpa. Você está sendo covarde. Não está lutando pelas coisas que quer porque tem medo de ir lá fora e quebrar a cara. Pois se fosse eu, eu pagaria pra ver…
_ Então é isso que pensa de mim? Que eu sou um covarde?
_ É o que eu acho… Desde que começamos conversar você repete a mesma coisa: “não é assim tão fácil”. Nada é fácil, mas a gente tem que tentar. Tem que fazer alguma coisa porque ficar esperando que aconteça não dá porque simplesment não acontece…
_ Você não faz idéia do quanto as coisas são difíceis. Você é muito menina ainda… As vezes eu penso em brigar com o mundo, culpo a vida por tudo que aconteceu com a gente. Parece que foi ontem que o meu pai morreu e no entanto faz tanto tempo que eu já até me esqueci dos traços dele. Eu não me lembro mais como ele era, como ele sorria, como ele me olhava… Eu vejo aquelas fotos que a Cris deixa pelos quatro cantos da casa e aquele homem que está lá parece um estranho pra mim. Eu sei que aquela era a imagem dele, mas é só o que eu sei… Eu tinha cinco anos quando ele morreu. Nem entendi direito o que aconteceu. Levei anos para entender que a minha própria mãe tinha o matado. Você faz idéia do que significa para uma criança ver sua própria mãe sair algemada de dentro do lugar onde você mora porque sua própria filha a denunciou?

Zora não conhecia aquela história. A Cristina não falava na mãe, apenas no pai que era aquela figura de homem que ela tanto parecia admirar: _ Então sua mãe foi presa?
_ Foi. Meu pai estava muito doente e ela achou que ele não merecia continuar sofrendo e ministrou doses altas de morfina até ele morrer. Essa foi a defesa dela, mas a Cris sempre disse que ela fez isso pensando somente nela – até porque ela fugiu com outro homem e só voltou  quando meu pai já estava muito doente. Como se ela tivesse adivinhado de alguma forma que ele estava mal. Ela simplesmente voltou, passou pela porta como se nada tivesse acontecido. Tomou conta da casa, de tudo. Minha mãe foi embora quando eu tinha pouco mais de dois anos. Ela nem se importou com a gente. Simplesmente foi embora com outro homem e ponto final. Sabe que ela chegou a colocar a Cris pra fora de casa? Daquela mulher eu não faço questão nenhuma de me lembrar…
_ Mas você se lembra dela?
_ Não claramente… Ela parece uma fotografia sem foco. Lembro dela passando pela porta de entrada e nada mais… Foi tão difícil pra todos nós, de formas diferentes é claro. Então quando eu penso nas coisas que eu quero, eu lembro também das coisas que a minha irmã tanto queria e não teve por causa da gente…
_ Eu até entendo Edgar… Mas vocês não pediram pra ela abandonar os sonhos, os ideais para ficar com vocês. Ela fez o que achava certo, mas isso não parece justo.Você está abrindo mão dos seus sonhos, da sua felicidade. Quer saber? Eu vou te fazer uma proposta…
_ Proposta?
_ Que tal eu te ajudar a se encontrar aqui dentro? A gente arruma toda essa bagunça e faz desse lugar um cantinho do Edgar, com a sua cara realmente. Pelo menos aqui dentro, você pode tentar ser aquilo que você tanto quer. O que me diz?

Edgar respirou fundo e se permitiu sorrir. Ficou surpreso ao perceber que havia gostado daquela idéia maluca que nem parecia ser assim tão maluca e ao olhar para aquela expressão calma de menina viu-se encantado, fascinado por ela.

Aquela sim seria uma garota com quem gostaria de passar o resto de sua vida.
Juntos reuniram vários sacos de lixo. Era tanta porcaria acumulada ao longo de todos aqueles anos que era possível contar uma história com base no que se recolhia do chão, do sofá, dos armários, de baixo da cama e de todos os cantos possíveis… Por sorte, aquele lugar não era assim tão grande. A primeira parte do trabalho foi cumprida em pouco mais de duas horas quando finalmente constataram que não havia mais nenhum lixo naquele apartamento:

_ Uau. Nem eu sabia que tinha tanto lixo aqui dentro. Você contou os sacos?
_ Parei de contar depois do sétimo para não desanimar…
_ Ok! Eu mereço. Quer saber, eu vou pedir uma pizza para nós dois. Que sabor você gosta?
_ Qualquer um, contanto que tenha muito queijo. E eu vou aproveitar para ligar pra sua irmã e avisar que eu vou demorar muito… Sentiu a intensidade do “muito”?

Depois de comerem vários pedaços de pizza, livraram-se do sofá que já estava rasgado, a mesinha de centro que estava sendo mantida no lugar por pilhas de livros. Muitas coisas foram ganhando como destino o lixo porque já não tinham mais jeito e por fim, o apartamento praticamente ficou vazio:

_ Agora só falta reconstruir esse lugar. Eu acho que você deveria ter um sofá preto, bem aqui no meio. Uma mesa de vidro ali naquele canto com uma luminária grande que iluminasse bem a mesa. Um gaveteiro ao lado e nada mais. Na parede você pode tirar fotos por aí e montar um painel. E lá no quarto só a cama com um móvel comprido tipo prateleira desde a porta até a janela e só…
_ Olha, se a publicidade não der certo, você pode tentar decoração…
_ Bobo!
_ Mas eu estou falando sério. E a cozinha? O que a gente faz com ela?
_ Sei lá, um monte de coisas coloridas. Geladeira vermelha, mesa redonda com aqueles pedregulhos coloridos. Sabe aquelas cadeiras de mil novecentos e bolinhas?
_ Mil novecentos e bolinhas? De onde você tirou isso?
Os dois estavam sorridentes e de repente ele a viu ali, diante de si, tão próxima, tão ao seu alcance… De repente, ele se deu conta do quanto eram parecidos e foi o instante perfeito pra ele… Edgar a tomou para si num beijo demorado que inicialmente fora aceito até Zora perceber o que estava acontecendo ali:
_ Por que fez isso?
_ Não gostou do beijo?
_ Eu não sei. Nossa! Você é noivo e eu não me lembro de nada e tem outra pessoa…
_ Outra pessoa?
_ Alguém que eu conheci. Eu gosto de você Edgar, mas não desse jeito, eu acho. Não sei…
_ Zora, me desculpe. Eu não queria te deixar confusa – só que eu quis te beijar. Eu quis muito, eu ainda quero. Quero muito…

Categoriasnovela

Vigésimo Primeiro Capítulo…

Maio 30, 2009 Lunna Deixe um comentário

Nas duas semanas seguintes Zora se dividiu entre pensar no beijo que ganhara de Edgar e no olhar de Henrique que tanto a fazia sorrir. Ele a estava ensinando a dirigir e tinha toda paciência do mundo para com ela que vez ou outra se surpreendia rindo ao olhar para ele. Mas era sempre assim, quando ela estava com ele, pensava em Edgar e ficava tentando imaginar como seria o beijo de Henrique, mas nunca conseguia ir além, quando Henrique iria beijá-la, ela abria os olhos porque alguém chamava por ela ou porque ela acordava. Então respirava fundo e tentava conter a frustração…

Edgar seguia ali, na sua sala de desenho, com seus rabiscos cheios de cor ou às vezes sem cor alguma. Ela gostava de espiá-lo enquanto trabalhava. O estágio na AM publicidades estava indo bem, aos poucos ela descobria como era ser uma grande publicitária, responsável por tantas equipes de criação, com tantos produtos que deveriam conquistar o público ao qual eles eram destinados. Aquele mundo era realmente fascinante para ela, mas havia também o outro mundo, onde a insistência do investigador Leonel Prudente a incomodava. Ele parecia comungar da opinião de Rogério que não acreditava na amnésia de Zora e por mais que ela se esforçasse, simplesmente não vinha uma só imagem a sua mente. Era tudo um grande e imenso vazio incomodo.

O médico insistia em dizer que sua memória poderia voltar a qualquer momento, quando ela menos esperasse poderiam surgir alguns flashes. Mas infelizmente não havia como determinar quando e se isso realmente viria a acontecer. Zora já estava cansada daquilo tudo, daquela espécie de silêncio que havia dentro dela e por mais que Cristina dissesse que a vida estava dando a ela uma segunda chance, Zora não conseguia ver dessa forma…

Ela só se esquecia do problema quando estava em companhia de Henrique ou de Edgar. O primeiro foi convencido por ela a cortar os cabelos, a tirar a barba e o bigode. O resultado final havia sido perfeito. Havia uma espécie de príncipe encantado por trás daqueles longos cabelos e daquela estranha barba:

_ Então, o que você achou? Fiquei bem?
_ Agora só falta alguns detalhes pra que você fique realmente perfeito…
_ Ainda falta alguma coisa?
_ Claro. Escolher roupas que combinem com você. Esse terno e essa gravata não tem nada a ver com você… Acho que você faz muito mais o estilo esporte social. Mas eu cuido disso.
_ Vamos com calma. Eu já dei um passo maior que a minha perna está acostumada. Não vamos exagerar e além do mais a minha irmã…

Antes que Herinque concluísse a famosa frase, Zora o impediu, afinal, ela não gostava daquela estranha mania de tudo ser determinado por Cristina. Tudo bem que ela tinha feito isso ou aquilo, mas e daí?

_ Henrique, a vida não é assim tão longa pra gente ficar desperdiçando. Olha só, roupa é segunda pele. Você precisa se sentir confortável com elas e definitivamente você não está confortável aí dentro. Dá pra sentir de londe…
_ Ok! Você venceu. Mas a gente só vai dar uma olhada nas roupas. Nada de compras. Ok?

O sorriso de Zora dizia exatamente o contrário. Os dois passaram em várias lojas. Henrique experimentou e comprou quase um guarda roupa inteiro. Era a primeira vez na vida que ele se divertia fazendo compras. Nunca tivera paciência com lojas, roupas ou coisas do tipo. Sempre que precisava de roupas, Cristina cuidava de tudo. Sendo assim, era ela quem decidia que estilo de roupa ele usava e ela achava que ele ficava perfeito com camisas, calças, sapatos sociais, ternos e gravatas. Era sua ilusão de homem bem vestido. O que era engraçado, já que Rogério não se vestia assim, mas também, Zora não se lembrava de ver Cristina prestando atenção naquela estranha forma de homem.

As mudanças na vida de Henrique e Edgar estavam acontecendo de uma forma muito rápida e Zora era a principal responsável por isso. Cristina não gostara do novo visual de Henrique e irritou-se tão logo o encontrara:

_ O que fez com seu cabelo?
_ Cortei! Não gostou?
_ Claro que não. Seu cabelo era lindo. Como fez isso sem me consultar? Quanto tempo vai demorar para crescer novamente. E sua barba?
_ Não vou deixá-la crescer novamente Cris… Gostei do meu novo visual, acho que até fiquei mais jovem.
_ Você só pode estar brincando Fausto. Seu cabelo era lindo. O que esta acontecendo com você? É uma daquelas crises de meia idade que dizem que os homens costumam ter? Só falta agora você largar a sua mulher e arrumar uma menininha de vinte anos ou mais…

O olhar de Henrique acabou por descobrir Zora adentrando a sala e não mais conseguiu dar atenção aos dizeres de sua irmã. Houve uma forma de silêncio única e ele sorriu – para inquietação de Cristina que se sentiu ignorada e só não explodiu porque Zora se aproximou com um lindo sorriso nos lábios:

_ Oi Henrique…
_ Zora, o nome dele é Fausto!
_ Fausto Henrique Mansur… Mas eu não consigo chamá-lo assim. Nem parece ele. Eu gosto de Henrique e eu adorei o seu novo visual, ficou tão mais elegante, mais jovem, mais…
_ Zora, o meu irmão está passando por uma crise, não fique incentivando!
_ Crise?
_ É algo que segundo consta acontece com os homens… Espero que isso passe logo! Que tal procurar ajuda profissional para resolver isso?
Cristina só deixou Henrique em paz quando avistou Edgar entrando pela porta e chegou à conclusão de que sua família estava com problemas. Edgar não havia penteado os cabelos que estavam crescendo. Ele ainda havia deixado um cavanhaque crescer. Cristina estava em estado de pânico, boquiaberta:

_ Edgar, o que está acontecendo com você? Que roupas são essas? Calça rasgada, camiseta suja de tinta. Eu já tolerei a história da moto, fiz um enorme esforço anos atrás para aceitar que você queria uma moto, mas isso já é demais…

Categoriasnovela

Vigésimo Segundo Capítulo…

Maio 29, 2009 Lunna Deixe um comentário

O jantar daquela noite seria simplesmente indigesto para Cristina que não conseguia entender o que estava acontecendo com sua família. (Fausto) Henrique parecia outro homem e Edgar mais parecia um moleque irresponsável. Pelo menos Zora estava normal, pensava ela, que não fazia idéia de que sua filha adotiva era justamente a responsável por tantas mudanças na vida de seus irmãos.

Zora por sua vez, estava feliz. Estava gostando de ver Henrique à vontade, sem aquele estranho olhar em seus olhos e Edgar parecia mais leve, com menos peso sobre os ombros…

O jantar, contudo, foi um dos mais silenciosos naquela casa. O toque dos talheres nos pratos podia ser ouvido com precisão. Naquela noite, Rogério não estava presente, era à noite em que ele saia com suas garotas, claro, é preciso lembrar que Cristina também determinava quem era a garota que iria para a cama com seu marido que poderia fazer o que bem quisesse, contanto que fosse absolutamente discreto e ela tomava todas as providências para que fosse realmente assim…

Zora ocupava-se de observar Cristina, ela estava realmente incomodada com a postura de seus irmãos, o que deixava aquela jovem um tanto inquieta. Pensava consigo mesma “como alguém pode ser tão egoísta?” Zora tentava desviar o olhar e evitar pensar daquela forma, mas voltava sempre pra ela e verificava o jeito como Cristina olhava para seus irmãos. Parecia haver um misto de raiva e irritação, como se eles não tivesse o direito de conquistar algo sem sua intervenção.

Durante a sobremesa, Cristina ficara sabendo que a mulher de (Fausto) Henrique estava de viagem marcada. Ela e os filhos iriam para os Estados Unidos e ele não iria acompanhá-los, mas um motivo de discórdia naquele dia:

_ Como assim você não vai com eles?
_ Não posso! Estou envolvido em alguns projetos e não posso deixá-los nas mãos de outros.
_ Entendi, mas a viagem pode ser adiada…
_ Cris, já está tudo acertado… Eles viajam na sexta, já conversamos em casa sobre isso…
_ Já conversaram?

Desde quando (Fausto) Henrique tomava alguma atitude sem antes consultá-la? O que estava acontecendo afinal de contas? A gota d´água veio após o jantar, os dois irmãos foram conversar a portas fechadas e Cristina ficara sabendo que o real motivo da viagem era que o casamento do irmão estava passando por mais uma crise que dessa vez parecia não ter como ser contornada:

_ Fausto, todos os casamentos passam por crise. Isso se resolve!
_ Cris, quer me ouvir uma vez na vida? O meu casamento já acabou faz muito tempo, aliás, eu acho que ele nem teve um começo. Eu nem sei por que eu me casei com aquela mulher…
_ Por que ela era a mulher ideal pra você…
_ É… Eu havia me esquecido dessa parte. Olha, eu estou cansado, faz anos que eu vivo uma vida chata, cansativa e eu só tenho um pouco de paz quando eu estou jogando tênis no clube. Mas isso dura pouco demais. Eu quero muito mais pra mim… O mais estranho disso tudo é que eu precisei levar um puxão de orelhas de uma menina! _ Eu sabia, então é isso. Eu tinha certeza que tinha uma mulher nessa história… Quem é ela? Uma secretária? Uma estagiária?

(Fausto) Henrique achou graça daquele comentário, de repente ele sentiu pena de sua irmã e por um breve instante sentiu pena de si mesmo. Respirou fundo e acabou abraçando Cristina que não esperava por aquilo. Ela sentiu-se impaciente por um instante, mas se largou naquele abraço que a fez lembrar de seu pai uma vez mais e seus olhos encheram de água:

_ O que deu em você Fausto?
_ Sente-se aqui. Cris, nenhuma mudança que aconteça em mim vai diminuir o amor que eu sinto por você. Eu sou e sempre serei eternamente grato por tudo que você fez por mim e pelo Edgar. Mas às vezes eu acho que você pagou um preço tão alto por isso. E foram tão poucas as vezes que eu vi você feliz…
_ Felicidade é uma bobagem Fausto e você sabe disso tão bem quanto eu…
_ Você sabe que não é assim… Ser feliz é essencial ou então porque a Zora está aqui? Ela faz você feliz. Acha que nós não percebemos isso? Você está trabalhando menos, esta vivendo de verdade pela primeira vez em muito tempo. No começo, eu confesso que fiquei preocupado. A gente não sabia nada sobre essa garota, mas quando eu vi o brilho no seu olho e todo o seu carinho com ela, eu disse pro Edgar “cara não importa quem seja essa garota, só importa que de alguma forma ela esta fazendo a Cris feliz”… Eu não estava feliz e não quero passar o resto da minha vida assim, você entende isso?

Cristina respirou fundo, conteve as lágrimas, se desvencilhou do irmão. Deu alguns passos, tempo suficiente para pensar algumas coisas e sorriu ao perceber que seu irmão finalmente havia se tornado um homem e pensou no orgulho que seu pai teria dele:

_ E você já conversou com um advogado para resolver essa situação?
_ Ainda não! Mas vou fazer isso nos próximos dias…
_ E vai morar aonde? Seu antigo quarto ainda está vago nessa casa. Quer dizer, até você encontrar um lugar pra você… Um lugar que tenha cara de Henrique, não é?
_ Obrigado!

Os dois se abraçaram numa intensidade gostosa. Cristina seguia respirando fundo, havia um pouco de medo em sua pele, mas com toda certeza aquele medo iria desaparecer por completo em algum momento porque ela não estava perdendo absolutamente nada, muito pelo contrário, ela havia ganhado muito naquele momento:

_ Henrique, me diz uma coisa… Você acha que o Edgar também não é feliz?

Categoriasnovela

Vigésimo Terceiro Capítulo…

Maio 28, 2009 Lunna Deixe um comentário

Naquela manhã haviam malas na porta de entrada – eram de Henrique que lá estava para o café da manhã. Uma surpresa maravilhosa para Zora que ficou feliz em vê-lo ali:

_ São suas aquelas malas na entrada?
_ São sim, eu vou passar uns tempos aqui no meu antigo quarto, mas é só até eu encontrar um lugar que tenha a minha cara e eu já comecei a procurar.
_ Nossa! Quantas mudanças. E a sua mulher?
_ Ela vai viajar com as crianças e quando voltar a gente assina os papéis. Chegamos a um acordo. E isso significa que agora eu sou um homem solteiro…
E por que ele estava dizendo isso a ela? Pensou Zora que ficou sorridente com a notícia: _ E isso é legal?
_ De certa forma sim…

Mas a harmonia matinal fora interrompida, devido à entrada de Rogério que se mostrava bem disposto, principalmente no quesito perturbar a paz de Zora: _ Dormiu bem moçinha? Espera. Não me diga: já sei, você não se lembra?

_ O que foi Rogério? Tinha espinhos na cama ou a Cris te deu um ponta pé?
_ Eu não falei com você Fausto, falei com essa garota dissimulada. Por que não conta logo pra ele que você está fingindo que não se lembra de nada só para continuar aqui? _ Zora, não dê atenção pra ele, ele tem muito hormônio onde deveria ter neurônios. Espera. Não me diga: já sei, você não faz idéia do que seja um neurônio?

Henrique e Zora caíram na risada o que deixou Rogério extremamente irritado. Ele saiu pidando duro em direção a cozinha e quase derrubou Cristina que vinha ao encontro de Zora e Henrique:

_ Por que você não olha por onde anda Rogério? Vai logo lá para sua piscina e não polui o ambiente onde eu estou…
_ Escuta, o que o idiota do seu irmão está fazendo aqui já cedo?
_ Isso não é da sua conta, mas tão logo passe a ser – não se incomode que eu mesma te comunico!

Cristina ignorou Rogério como de costume, vestiu um sorriso tão logo avistou Zora. Deu-lhe um beijo carinhoso e ficou feliz em ver as malas de seu irmão na entrada: _ Malas são um bom sinal… Não acha?

_ Claro. Só não subiram ainda porque estão limpando o quarto…
_ Zora, o Henrique vai ficar aqui com a gente por um tempo. Ele está se separando da mulher e enquanto não encontra um lugar perfeito, ele fica aqui no único lugar perfeito que eu conheço!

Zora estava feliz e ao mesmo tempo surpresa. Cristina chamando seu irmão de Henrique e feliz em tê-lo ali – mesmo com todas aquelas mudanças repentinas. Isso a fez esquecer completamente os pensamentos que tivera um dia antes. De repente ela tinha certeza de que Cristina era uma mulher surpreendente, ao mesmo tempo em que era alguém que também precisava passar por mudanças em sua vida:

A caminho da escola, Zora não parava de observá-la. Fato este que não passou desapercebido por muito tempo. Cristina percbeu que estava sendo alvo de um olhar atento, investigativo e claro que isso a fez rir enquanto tentava descobrir por conta própria o que Zora estaria buscando através daquele olhar que parecia ser capaz de deixá-la nua:

_ Está bem, eu desisto – o que foi? O que está tentando descobrir me olhando desse jeito?
_ Absolutamente nada. É que eu fiquei surpresa com você. Achei legal sua atitude com o Henrique… Aí eu fiquei imaginando aqui comigo porque você também não muda algumas coisas?
_ Eu? Como assim Zora?
_ Eu sei que você deve ter sonhos, planos e projetos. Então porque não se dedica a isso?

Cristina respirou fundo, por um instante esqueceu  até mesmo que estava no trânsito que parecia não andar. Lembrou do sonho de ter uma pousada, filhos, um homem encantador que lhe surpreenderia no decorrer dos dias. Preparia programações interessantes para as temporadas na pousada que viviria cheia de gente jovem e bonita. Mas aquele era um sonho perdido. Sua realidade agora era aquela, diante do transito parado, a caminho do trabalho. Ao menos ela tinha Zora para lhe fazer perguntas: _ A vida não é feita de sonhos Zora, não na minha idade. Mas na sua idade sim, você tem que ter muitos sonhos, ousados, magnificos e fazer o possível e o impossível para realizá-los…
_ Cristina, essa coisa de idade não existe. É bobagem. A gente só precisa viver e fazer o possível para que a vida seja uma extensão dos nossos sonhos! Até parece que você é uma velha de cem anos e vai morrer amanhã. Pronto. Já acabou, não dá tempo de fazer mais nada. Olha pra tudo que você fez até agora. De tudo isso o que te deu prazer, felicidade, aquele sabor especial?
_ Isso não é justo Zora…
_ Eu também acho. Eu sei que você teve que fazer escolhas, mas também acho que essas escolhas se tornaram uma espécie de desculpa pra você. Você é uma pessoa maravilhosa e merece muito mais de você mesma…

O comentário trouxe um sorriso gostoso aos lábios de Cristina que respirou fundo ao se dar conta de que estava ouvindo uma espécie de sermão de uma menina de apenas dezessete anos.  Uma menina que sabia tão pouco sobre si mesma, mas que parecia ter um manual de como viver a vida.

_ Eu acho que poucas vezes eu fui tão feliz quanto agora e o meu irmão tem razão, você é a única responsável por isso…

Categoriasnovela

Vigésimo Quarto Capítulo…

Maio 27, 2009 Lunna Deixe um comentário

Para surpresa de Zora, Henrique fora pegá-la na escola. Ele tinha um convite a fazer e mesmo antes de saber do que se tratava, é claro que ela já tinha aceito. Juntos foram a Interlagos assistir a uma corrida de carros. Henrique era apaixonado por corridas desde pequeno e ficava eufórico quando um carro passava a frente de onde estavam a mais de duzentos quilômetros por hora.

Ele sabia detalhes sobre os carros: tipo de motor, de freios, de aerodinâmica e Zora não entendia absolutamente nada do que ele falava, parecia outra língua, mas gostava de sentir toda aquela euforia fluindo de Henrique que foi conversar com os mecânicos e com o piloto do carro que já tinha ouvido falar dele:

_ Você não é Henrique Mansur?
_ Sou eu mesmo, mas não me lembro de tê-lo conhecido pessoalmente…
_ Não nos conhecemos pessoalmente. Eu tive um problema com o motor do meu carro e os engenheiros da minha antiga equipe não conseguiam resolver de jeito algum. Desmontaram e montaram o motor milhares de vezes, então falaram de levar o motor pra você dar uma olhada. Mas isso já faz tempo, eu estava numa outra categoria e minha equipe era cheia de novatos, inclusive eu era um deles. Mas você resolveu o problema e o carro ficou bom. Não ganhei nenhuma corrida, mas consegui uma vaga numa equipe bem melhor que aquela…
_ Legal!
_ E o que está fazendo por aqui, procurando emprego?
_ Quem sabe?

Zora esperava que Henrique não estivesse brincando quando disse aquilo, afinal, aquele parecia ser o mundo dele. Mas ele parecia sim estar brincando, afinal, o sonho dele era ser piloto e não engenheiro de uma equipe, mas segundo ele, o tempo daquele sonho já havia passado. Claro que Zora discordava:

_ Sei lá Henrique, eu acho que os sonhos se transformam no decorrer de uma vida. Você não acha?
_Você está sempre me instigando, não é mesmo? Hei, quantos anos mesmo você tem?
_ Eu não sei, eu não lembro, esqueceu? Claro que os dois acharam graça da piada, mas o fato era que Zora era uma menina a bordo dos seus dezessete anos. Ela tinha idade para ser filha de Henrique e ele tentava não se esquecer disso naquele momento em que estava ali, bem diante dela, observando atentamente aqueles belos olhos cheios de vida e de perguntas sem respostas. De repente, ele se viu cheio de vontade de beijá-la, mas se condenou por tal sentimento. Seu coração quase saíra pela boca – parecia um adolescente irresponsável e ela ali, diante dele, a esperar ansiosamente por aquele beijo que novamente não aconteceu:
_ O que foi Henrique?
_ Nada Zora, eu estava pensando no que você disse. No quanto seria legal ter uma equipe, competir, ter pilotos, vê-los correndo com o meu equipamento… Talvez você tenha razão. Talvez os sonhos se transformem… Dona Zora Mansur, você é uma menina muito especial. Muito mesmo…
_ Por que está dizendo isso?
_ Porque é verdade. Agora vamos, porque a Cris já deve estar nos esperando lá no clube!

Zora ficara em silêncio por um bom tempo dentro do carro, enquanto seguiam para o clube e justamente ela que falava o tempo todo. Henrique já estava preocupado com todo aquele silêncio:

_ Zora, você está bem? Não disse nada desde que saímos de Interlagos, o que houve? Foi alguma coisa que eu disse?
_ Não, claro que não. Eu estava aqui pensando. Só isso…
_ Hummm! E em que estava pensando?
_ Numa pessoa de quem eu acho que estou gostando muito, mais do que eu deveria!

Henrique respirou fundo, lógico: “era algo natural ela gostar de alguém” pensava ele enquanto tentava imaginar quem seria o garoto de quem Zora estaria gostando. Deveria ser alguém da escola ou alguém que trabalhasse na empresa. Isso o incomodou muito e ele se esforçou para não deixar transparecer seu desconforto para com aquele assunto: _ E quem é o felizardo? Ele já sabe?

_ Não. Eu não falei nada pra ele. É que ele é um cara incrível e eu gostei dele desde a primeira vez que o vi. O olho dele parecia falar comigo e ele sorriu quando me cumprimentou. Passei uma noite inteira pensando nele. Eu me lembrava do olhar, do sorriso, do contorno do rosto, das mãos dele… Mas acho que ele não gosta de mim, não como eu gostaria…
_ Por que não diz pra ele o que você sente?
_ E se ele não sentir o mesmo?
_ Dona Zora Mansur, não vai me dizer que a senhora está com medo? Não faz o seu estilo. Não é você mesma quem vive dizendo que a gente tem que se arriscar? Que a gente tem que fazer todo o possível para que os sonhos sejam reais para não se arrepender depois? Então?
_ Mas é diferente Henrique!
_ Sempre é diferente quando é com a gente. Mas em que é diferente?

Henrique encostou o carro, soltou o cinto de segurança para dar mais atenção a Zora e seu dilema de amor, o que serviu apenas para deixá-la um tanto desconfortável. Ela tentava descobrir como era possível se estar tão perto e tão longe ao mesmo tempo porque Henrique estava ali ao alcance dela e ao mesmo tempo ela não o alcançava.

_ Como se diz isso pra alguém o que a gente está sentindo?
_ É fácil, basta você olhar bem nos olhos dessa pessoa e deixar a sua emoção falar por você e tudo acontece naturalmente… Então, não vai me contar quem é o sortudo?

Era possível sentir a respiração um do outro, a inquietação da pele, a tensão e uma vontade aumentando mais e mais por um toque, um beijo – uma forma de reencontro. Era como se ambos tivessem vivido a vida inteira apenas para chegar ali, naquele instante. Não foi preciso que Zora dissesse uma só palavra. De repente, Henrique se deu conta de tudo que estava acontecendo ali e desviou o olhar repentinamente. Fechou os olhos como se tivesse sido tomado por um imenso pavor, respirou fundo e percebeu que estava assustado.  Ela era apenas uma menina e ele um homem. Esqueceu-se de si e lembrou-se de Cristina que ficaria furiosa com ele, mas não era nela que ele precisava pensar e sim em Zora, ele queria dizer a ela que também estava apaixonado por ela e já fazia algum tempo… Desejava fazer um  carinho em sua pele macia e juvenil, cheia de tons e ilusões tantas. Queria  tocar aqueles lábios, mas precisava não pensar nisso para que a razão não lhe escapasse:

_ Zora, eu tenho idade pra ser seu pai!

Aquele era para ser um momento perfeito, mas Henrique disse algo diferente do que Zora desejava ouvir. Seus olhos inundaram-se repentinamente e ela preferiu sair do carro para que ele não a visse chorando. Enxugou as lágrimas com rapidez já do lado de fora do carro e respirou fundo. Tal atitude deixou Henrique desconcertado e ele foi atrás dela:

_ Zora…
_ Não diz nada… Não deixa pior do que já está!
_ O que?
_ Eu imaginei milhares de vezes esse momento, mas em nenhuma das vezes foi assim, com você me dizendo que tem idade pra ser meu pai. Mas tudo bem, algumas coisas são como devem ser e não como a gente quer que seja… Não é isso que dizem?

Se por um lado Henrique estava feliz por saber que era dele que Zora estava falando, por outro estava apreensivo, ela era apenas uma menina e na certa estava encantada com ele e nada mais. A juventude nos confere muitas ilusões e na certa ela estava a abraçar uma das muitas que ainda iria ter…

Categoriasnovela

Vigésimo Quinto Capítulo…

Maio 26, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora estava sem sono, então foi para a cozinha tomar um copo de suco enquanto tentava ler as páginas de um livro para o vestibular, mas não conseguia direcionar sua atenção aquelas páginas e para piorar ainda mais teve por companhia Rogério que chegara de sua noite de curtição. Era tudo que ela não precisava naquele momento:

_ Olha só quem está aqui. Não me diga que estava esperando pelo papai aqui?
E tudo que ela conseguia pensar era “como ele consegue ser tão idiota desse jeito?” e como não parecia ser possível ter sossego na cozinha, Zora decidiu pegar o livro, o copo de suco e voltar para seu quarto antes que perdesse a paciência com aquele ser de outro planeta:
_ Não vai embora não, fica aqui com o papai… Eu vou tornar sua vida muito agradável… Já está ficando chato essa sua resistência. Eu gosto de garotas difíceis, mas até certo ponto…
Ao sentir o toque das mãos de Rogério em suas nádegas, Zora perdeu de vez a pouca paciência que ainda tinha com ele. Não teve dúvida, jogou o suco em sua cara: _ Vai passar a mão na sua mãe, seu idiota!
_ Nossa! Como ela é bravinha. Eu já te disse que eu adoro isso? Você deve ser pura brasa na cama, numa mesa – você é o tipo que a gente pega em qualquer lugar. Eu conheço bem esse tipo, sabia? Estou ficando todo cheio de tezão…

Rogério segurou Zora à força, tentando beijá-la enquanto ela se esquivava. Um pisão forte no pé dele o fez soltá-la e a chegada de Henrique na cozinha pôs fim aquela perseguição. Henrique por sua vez, percebeu claramente que havia algo de errado no ar:

_ Algum problema Zora?
_ O único problema nessa casa é você Fausto. E quanto você dona Zora, eu cuido de você depois…

Diante daquele comentário, Henrique não o deixou sair, quis ouvir explicações que obviamente, Rogério se recusava a dar:

_ Eu não tenho que te dar satisfações, ainda mais quando se trata dessa vadia que fica dando mole pra mim, se fazendo de inocente e depois faz doce. Ou você não conhece o tipo?
Zora respirou fundo para  não responder aquele comentário idiota. Desviou o olhar e procurou não dar mais atenção para aquele projeto mal feito de homem. Definitivamente ela não entendia como Cristina o aturava:
_ Não vem com esse olhar de menina pura, inocente pra cima de mim. Tudo bem que esse cara aqui não passa de um idiota, mas ele é homem e deve conhecer muito bem vadias como você que ficam fazendo tipo pra gente e depois fogem da raia quando a coisa esquenta!

Henrique respirou fundo, mas não foi o suficiente para contê-lo. Um soco bem dado levou Rogério aos pés de Cristina que estava entrando na cozinha e ele sorriu ironicamente ao vê-la ali. Era dia de festa na casa da família Mansur:

_ Posso saber o que está acontecendo aqui? 
Rogério levantou-se imediatamente, encarou sua mulher de frente e antes que Henrique dissesse algo:
_ Eu estava dizendo umas verdades sobre a sua “filhinha” e parece que ele não gostou. Eu sou o único nessa casa que não caí nesse joguinho barato dessa menina. E você dona Cristina Mansur, está fazendo papel de idiota acreditando nesse jeitinho manso, nessa carinha de anjo. Você vai se arrepender por não me dar atenção. Ela ainda vai aprontar muito aqui dentro e depois não diga que eu não avisei…
_ O que foi que ele fez Henrique?
_ Não acredita em mim? Então paga pra ver!
_ Eu não sabia que seu nome agora era Henrique!
_ Ele me disse algumas coisas pouco elegantes sobre a Zora e eu não gostei…
_ Seu irmãozinho é tão fofinho, você não acha? Ele não passa de um covarde e só me acertou porque eu estava distraído…
_ Chega Rogério, peça desculpas a Zora agora!
_ Você só pode estar de brincadeira, pedir desculpas pra essa aí? Nem pensar. Você deveria me ouvir, ela vai…

Mas antes que Rogério concluísse seu comentário, ele sentiu sua face arder, o que o deixou cheio de fúria. Seu olhar para Cristina parecia cuspir fogo. Ele rangia os dentes e bufava feito boi bravo, mas ele não podia perder sua mina de ouro, já que ele não tinha direito a nada e depois de tantos anos agüentando aquela mulher, não iria ser por causa de uma vagabunda qualquer que ele iria por tudo a perder. Era a primeira vez que Cristina o agredia daquela forma e com toda certeza ela iria receber o troco, no momento certo…

Categoriasnovela

Vigésimo Sexto Capítulo…

Maio 25, 2009 Lunna Deixe um comentário

Rogério era aquele tipo de homem que só se importava consigo mesmo. Gostava de vida boa e de mulheres bonitas. Naquela noite havia passado horas se divertindo com uma garota que tinha um corpo bonito e um gingado incrível, era tudo que ele sabia dela. E para quê mais? Afinal, ele só precisava abrir o zíper da sua calça para se sentir um homem de verdade. E naquela noite, ele tinha muitos motivos para festejar, após tantos anos de espera, finalmente ele estava prestes a se livrar de sua mulher e ainda ficar com uma boa soma em dinheiro que lhe asseguraria uma vida tranquila por todo o sempre…

Ele não escondia sua satisfação. Estava alegre e só pensava em comemorar. Andava pelos quatro cantos da casa como se procurasse alguém com quem partilhar tamanha euforia. Mas a casa estava vazia, apenas os empregados estavam por lá, cumprindo suas obrigações e nada mais. Tomou café da manhã a beira da piscina como de costume. Deu algumas braçadas para manter a forma de homem “gostoso” que despertava atenção de todas as mulheres, sem excessão segundo ele mesmo…

Algumas horas depois, recebeu o advogado de sua mulher que ele mesmo chamou a fim de apresentar uma proposta que seria uma solução para os problemas vividos por Cristina Mansur até aquele momento:

_ Quer dizer que você aceita ser o álibe da Cristina se ela foi gentil o bastante com você, é isso que eu entendi?
_ Eu sou um álibe perfeito, sou uma pessoa acima de qualquer suspeita e como marido dela, ninguém vai desconfiar de nada. Mas é claro que isso tem o seu preço e se ela estiver a fim de pagar eu tiro ela da cadeia agora mesmo dizendo que ela estava comigo no dia que mataram aqueles dois…
_ Não existem provas concretas contra a sua mulher Rogério, não há digitais na arma e não há evidências de que foi ela quem escondeu no cofre… Não existe um caso propriamente dito! Existem suspeitas, só isso…
_ É mesmo? Então porque ela foi indiciada?
_ A polícia precisa de um culpado e a situação da sua mulher é frágil. Só isso, por essa razão eu estou sendo bem pago por ela… Ela não precisa de você…
_ Bem, essa é a sua opinião…
_ Você não passa de um canalha tentando se aproveitar da situação. Nada mais…

Rogério achou graça do comentário feito pelo advogado, se espriguiçou de forma gostosa e tranquila e assistiu de camarote o encontro dele com Henrique que ficou enfurecido ao saber da atitude de seu cunhado.

Henrique era um homem calmo, mas quando se irritava com algo costuma agir por impulso, sem pensar e naquele momento ele queria socar a cara de Rogério, mas foi contido pelo advogado que tratou de lembrá-lo que tal atitude não teria efeito positivo.

No dia seguinte, o Juíz rejeitou o pedido de Habeas corpus feito pelo advogado. As considerações feitas por ele geraram desconfortos vários. Afinal, todo aquele caso era muito fraco, não havias provas concretas de absolutamente nada. As testemunhas que diziam ter visto Cristina na casa dos pais de Zora se contradiziam a todo momento. Uma disse que ela trajava roupas claras enquanto outra dizia que era roupas escuras…

Categoriasnovela

Vigésimo Sétimo Capítulo…

Maio 24, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora voltou para casa no fim da tarde, tomou um chá quente na cozinha e foi para seu quarto. Não estava muito disposta, o dia havia sido longo, substituir Cristina na CM Publicidade não era uma tarefa simples, mesmo tendo ajuda de todos que trabalhavam com ela, era algo estranho, afinal, ela seguia tendo apenas dezessete anos… As vezes ela encontrava um motivo para sorrir, como agora em que tentava lembrar de algo ou pelo menos de tentar imaginar o que ela desejava e sonhava para sua vida. Então tentava imaginar o que aquelas moças com a mesma idade que ela pensavam sobre profissão, ideais, amores e o pensamento corria ao encontro de Henrique e aquele beijo que nunca acontecia, agora ela tinha uma resposta na ponta da língua “você tem idade para ser minha filha” e o sorriso desaparecia como por encanto. Tudo voltava aquele momento onde as coisas eram confusas e complicadas. Irreais demais para ser verdade… Então um suspiro profundo percorria os cantos de sua pele espalhando a aflição de uma menina que pouco ou nada sabia sobre si mesma, mas que naquele momento tinha mais a perder do que talvez tivesse tido uma vida inteira.

Seus passos lentos pela casa a conduziram a seu quarto, onde para sua surpresa, Rogério a esperava com tons de alegrias nos olhos e festivos nos lábios. Sem nenhuma cerimônia ele estorou o champanhe, derramando o líquido levemente dourado nas taças, entregando uma delas a Zora:

_ O que significa tudo isso?

O sorriso tolo que ele trazia em sua face a incomodava, havia alegria demais naquele homem. Ele caminhava a sua volta como se ao fazê-lo pudesse admirá-la mais e mais. Sentia o perfume de sua pele, de seu cabelo de forma rápida já que a jovem ainda se mostrava arredia para com ele. Mas haveria de ser tudo breve e passageiro, porque para Rogério tudo aquilo estava perto do fim – o fim desenhado por ele:

_ Isso é uma comemoração. Agora falta muito pouco para que a gente realize os nossos desejos. Muito pouco… A Cristina está presa e não vai sair daquela cadeia porque temos muita gente cuidando disso pra gente… E eu que cheguei a pensar que você iria estragar tudo. Sério! Achei que você estivesse pondo tudo a perder, mas você conseguiu de uma forma muito melhor do que a gente havia planejado. Essa história de amnésia foi perfeita… Você a conquistou, afastou os irmãos dela e teve ela todinha a sua disposição. Acho que ela daria o mundo inteiro pra você…

Zora estava incomodada com toda aquela conversa. Rogério parecia um homem saído de um daqueles cenários de filmes onde o vilão finalmente aplica o golpe perfeito, se dá bem e só pensa em um único detalhe: festejar. Zora estava imóvel, parecia que nenhum músculo do seu corpo se movia. Havia o cansaço, o descaso para com aquela figura de homem e a vontade de acordar, como se tudo aquilo fosse um simples pesadelo, desses que levam um pouco mais de tempo para acabar, mas acabam:

_ Porque está fazendo isso?

Por um instante, Rogério ficou apreensivo, andara de um lado para o outro, evitava olhar para Zora enquanto tentava crer no inevitável. E se fosse realmente verdade a história da sua amnésia: _ Espera um pouco… Você está me dizendo que realmente não se lembra de nada? Você não está fingindo?
_ Já disse que não…
_ Que droga. Não se lembra das conversas com Izabel?
_ Izabel? E que novidade era aquela agora? Quem afinal era Izabel? Ela nunca tinha ouvido aquele nome até aquele momento e isso contribuiu para deixar Rogério em pânico. Ainda assim ele buscou se conter:

_ É melhor você estar falando a verdade, porque se isso for um truque seu… É melhor não ser porque você não faz idéia do que eu sou capaz…

Zora estava atordoada, viu Rogério sair irritado de seu quarto enquanto ela mesma buscava entender tudo que estava acontecendo ali. Andando de um lado para o outro como quem busca por algo que não faz a menor idéia de onde esteja, ela ria de forma desconcertante, ao mesmo tempo em que escorriam lágrimas por sua face num desespero infinitamente seu. O chão lhe faltava e tudo, de repente estava tão insuportável.

Decidiu repentinamente ir ao quarto de Cristina e interpelar Rogério, afinal, ele parecia ser a única pessoa a saber algo sobre ela e muito embora não fosse alguém confiável, era alguém que poderia elucidar algo em sua mente ou quem sabe confundir mais ainda.

Henrique que acabara de chegar em casa viu Zora entrar no quarto de sua irmã e foi atrás dela a fim de saber como estava se sentindo já que pouco tinha falo com ela nauqele dia – mas para sua surpresa acabou ouvindo-a cobrando explicações de Rogério num tom pouco habitual:

_ Eu quero que me diga a verdade, entendeu? Eu preciso disso. Eu juro que eu não me lembro de nada. A única coisa que eu realmente me lembro é de ter acordado naquele maldito hospital e eu só soube que eu tinha sido atropelada porque o médico que estava cuidando de mim me disse…
_ Tudo bem, eu já entendi isso. Isso tudo foi idéia da Izabel, a mãe da Cristina… Ela queria alguém que fosse capaz de conquistar a confiança da toda poderosa Cristina Mansur que sempre quis ser mãe. Quando ela conheceu você, achou que tinha encontrado alguém a pessoa certa pra despertar o lado maternal da filha dela. Então ela planejou tudo, você viria trabalhar aqui inicialmente e aos poucos iria ganhando espaço. Com a morte da sua mãe, você ficaria fragilizada e a Izabel achava que seria nesse momento que a Cristina iria querer cuidar de você… No dia em que você foi atropelada, você estava vindo pra cá com uma indicação acima de qualquer suspeita. Mas eu não sei o que deu errado, a Cristina recebeu um telefone e saiu furiosa, logo depois eu soube que ela tinha atropelado você e quando eu contei para Izabel, ela pediu para esperar porque ela tinha certeza de que você iria dar um jeito de dar continuidade no plano…
_ Então eu aceitei fazer parte disso?
_ O que você acha?
_ Por que eu aceitaria fazer algo assim? E você? Por que esta fazendo isso?
_ Eu cansei de ser um palhaço nas mãos dessa mulher, ela acha que pode controlar o mundo, mas não pode. Quando a Izabel me procurou eu até pensei em não participar disso, mas depois mudei de idéia. Ela vai dar uma boa soma em dinheiro e eu vou poder aproveitar a vida como eu realmente quero, sem ter a sombra dessa mulherzinha por perto… Agora, escuta aqui, fica na sua e não estraga nada, entendeu? A Izabel passou mais de dez anos presa por causa da Cristina e ela teve tempo suficiente para pensar no que fazer contra ela. Então vê se não atrapalha, porque você não faz idéia do que essa mulher é capaz. Ela quer acabar com todos eles, um por um…

Categoriasnovela

Vigésimo Oitavo Capítulo…

Maio 23, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora estava pasma, mas tentava não deixar transparecer absolutamente nada, embora não fosse fácil. Ela não conseguia entender a razão de fazer parte de tudo aquilo. Que espécie de ser humano ela era? Respirou fundo e tentou saber mais coisas sobre si mesma:

_ Eu não estou entendendo nada. Quer dizer que eu deveria conquistar a Cristina, mas com que intenção?
_ Simples, fazer exatamente o que você estava fazendo…
_ O que eu estava fazendo?
_ Você tirou as rédias das mãos da Cristina, seduziu o Henrique, o Edgar e os afastou dela… Depois eu deveria começar a dopá-la e você assumira o controle da empresa e tiraria tudo deles… Tudo mesmo! Dinheiro, vida, família… A Izabel acha que quando o Henrique soubesse do seu envolvimento com o Edgar e comigo, ele iria explodir e talvez atirasse no próprio irmão… Porque o Henrique é muito calminho, mas é puro auto controle e você sabe, quando ele perde o controle, ele explode… Enfim, a história é essa… O que você vai fazer agora?

Zora não tinha uma resposta imediata para Rogério, ela engoliu seco, respirou fundo, sentiu um arrepio percorrer toda a extensão de seu corpo. Ela precisava de ar, precisava sair dali imediatamente e foi o que fez.

Do lado de fora, Henrique voltou para seu quarto rapidamente quando percebeu que Zora estava saíndo do quarto de sua irmã. Ele estava incrédulo e custava a crer em tudo que havia escutado, mas ao mesmo tempo estava furioso, zangado. Ele mal se lembrava de sua mãe. Lembrava-se apenas de ter visto sua mãe colocando gotas de remédio na comida que ela dava a ele. Ele tinha pouco mais de dezesseis anos e ao invés de confrontá-la preferiu contar a Cristina que foi quem tomou toda as atitudes contra ela. Era a primeira vez em muitos anos que ele pensava naquela mulher que saíra de casa deixando os filhos e o marido para trás para ir viver com o amante e anos depois voltara repentinamente como se nada tivesse acontecido. Ele a repudiava e agora mais ainda por saber que estava por trás de tudo que estava acontecendo com ele e com seus irmãos naquele momento. Então ele finalmente lembrou-se de Zora e ficou enojado de saber que ela aceitou participar de tudo aquilo:

_ Desgraçada e eu que achei que minha irmã estava feliz por causa dessa… Mas isso não vai ficar assim, não vai mesmo. Se vocês querem jogar, nós vamos jogar, mas a minha maneira…

Na manhã seguinte, Zora desceu para a cozinha e ficou sentada junto a mesa olhando para o copo de suco. Não dizia uma só palavra o que gerou olhares diversos para ela que exibia olheiras de quem não tinha conseguido dormir. Seu pensamento estava distante tanto quanto seu olhar que parecia perdido, desorientando… Nem mesmo a presença de Henrique fez diferença naquela manhã:

_ Bom dia…

A resposta de Zora veio lentamente, quase como um sopro ameno do vento. Faltava-lhe ânimo, disposição. Ela queria ficar em silêncio, sózinha, distante de tudo: _ Bom dia…
_ Dormiu bem?

Em meio a um sorriso pálido e uma respiração profunda que representava bem o quanto aquela noite tinha sido longa veio a resposta: _ Claro…

Então a manhã ficou perfeita, Rogério juntou-se a eles com sua disposição, vigor e alegria matinal. Ele estava eufórico e nem tentava disfarçar. Era um rei em seu castelo. Zora acompanhou cada movimento com um olhar de desprezo e tão logo ele sentou-se, ela levantou-se da mesa, não estava disposta a ficar sentada ao lado daquele homem:

_ Com licença, mas eu preciso ir…
_ Eu levo você!
_ Obrigada, mas não precisa…

Mas Henrique fazia questão de levá-la. Durante o trajeto até a empresa de sua irmã observou atentamente os movimentos de Zora que seguia sem dizer uma só palavra e ele seguia desejando saber o que ela estava pensando, algo que não deveria ser assim tão difícil e como ele estava disposto a usar as mesmas armas, estacionou o carro, soltou o cinto de segurança e aproximou-se dela:

_ O que você tem? Está me deixando preocupado… Está assim por causa da Cris, não é?
_ Também… Eu só queria que isso tudo acabasse o mais rápido possível. Parece um pesadelo do qual eu não acordo nunca…

Henrique sorriu, procurou acariciar o rosto de Zora que sentiu-se incomodada com aquele carinho, naquele momento ela não se sentia digna daquele toque. Foi preciso ser forte para não chorar ali diante dele. Ele por sua vez tentou trazê-la para mais perto a fim de beijá-la, mas ela fugiu dele. O beijo tão esperado por ela, agora era como uma faca a dilacerar sua alma:

_ Não faz isso, por favor…
_ Achei que era isso que você queria, porque é isso que eu quero. Eu sei que eu estraguei tudo no outro dia, mas é que naquele dia eu fiquei pensando na sua idade, na minha, na Cris e em tantas outras coisas, mas agora eu acho que tudo isso é bobagem e ver você assim, com essa carinha tão triste, me deu vontade de proteger você…
_ Henrique, eu preciso ir… Obrigada por me trazer!

Zora deu um beijo rápido no rosto de Henrique e saiu do carro que estava parado próximo a empresa. Seriam apenas alguns passos até lá e ela precisava disso, mas antes decidiu sentar-se num café qualquer ali da avenida Paulista e enquanto espera pelo café, ela se entregou a um choro compulsivo que a impediu de perceber que tinha companhia, só percebendo quando o garçon trouxe seu café:

_ Você está bem moça? Quer mais alguma coisa?

Zora enxugou as lágrimas e ficou a olhar para aquelas duas figuras a sua frente, uma delas era o investigador Leonel Prudente e a outra, uma mulher com ares de arrogante só poderia ser uma pessoa:

_ Traga dois expressos para nós…

O rapaz saiu rapidamente tão logo ouviu o pedido feito por aquela estranha figura de mulher falsamente elegante, com seus enormes óculos escuros cobrindo não apenas os olhos, mas boa parte da face:

_ Pelo que vejo, você não teve uma boa noite de sono, mas eu não consigo imaginar o motivo disso… No seu lugar, eu teria dormido feito um bebê…
_ Você deve ser a Izabel, não é?
_ Então é mesmo verdade que você não se lembra de nada. Como as coisas são, no mínimo: interessantes! Contudo, eu sei tenho uma pergunta a fazer pra você…
_ E qual é?
_ Você vai fazer parte do problema ou da solução? É só isso que eu preciso saber, mas o que você precisa saber antes de me dizer alguma coisa é que se você resolver fazer parte do problema, eu vou esmagar você como se esmaga um inseto. Eu nem preciso te dizer que eu tenho todo tipo de gente trabalhando pra mim porque eu acho que você já percebeu isso. Você perdeu a memória, mas não deve ter perdido a inteligência. As coisas não saíram exatamente como eu havia planejado, mas estão caminhando a contento. Eu sei por exemplo que os irmãos Mansur estão de quatro por você e vão fazer tudo que você quiser e eu os quero no chão, destruídos, arruinados… A irmã deles já está tendo um pouquinho de tudo que eu planejei pra ele.  Mas alguns dias naquele lugar e ela vai surtar, principalmente quando você for até lá e revelar pra ela que ela caiu feito um patinho num golpe perfeito…

De repente Zora entendeu perfeitamente o que precisava ser feito, ela sorriu de forma inquietante, olhou para Leonel rapidamente  como se a sua imagem não fosse mais algo sem sentido em sua mente. Ela não estava mais atordoada – estava completamente lúcida e pronta para dar continuidade em tudo aquilo:

_ Faltou você dizer uma coisa…
_ O que eu vou ganhar com isso?

A pergunta fez Izabel abrir um largo sorriso empalhado, ela gostava de pessoas ambiciosas porque elas eram realmente capazes de fazer a diferença. Não ficavam lá, paradas, esperando as coisas acontecer. Não, elas faziam acontecer:

_ Bem, depois que a Cristina assinar a procuração que vai te dar plenos poderes  para fazer o que você quiser com o patrimônio dela, você vai ter tudo que você quiser… O advogado dela já preparou o documento e vai sugerir a ela que você é uma pessoa capaz de assumir a empresa no lugar dela, coisa que você já mostrou ser realmente capaz e em breve você vai ajudar a apagar o nome Cristina Mansur da história da publicidade. Ela vai ser um ninguém e nada mais…

Categoriasnovela

Vigésimo Nono Capítulo…

Maio 22, 2009 Lunna Deixe um comentário

Henrique resolveu visitar Cristina na delegacia a fim de revelar a ela tudo que estava acontecendo. Ele estava tenso, precisava saber exatamente como agir, tinha certeza de que suas atitudes estavam corretas, mas também estava receoso, afinal sua irmã estava presa e isso não deveria ser algo fácil pra ela. Levou Edgar com ele, afinal, ele também estava direamente envolvido em tudo aquilo…

Os dois ficaram horas esperando para falar com a irmã que estava passando por exames de rotinas, nem mesmo o advogado pode acompanhá-la. Os três esperavam no saguão da delegacia de forma apreensiva:

_ A minha irmã está bem Dr. Rodolfo?
_ Acalme-se Henrique, faz parte do procedimento policial. Não há nada de errado até esse momento…

Apenas no final da tarde eles conseguiram vê-la, para espanto dos irmãos, Cristina estava bem, embora demonstrasse certa tensão no olhar, mas para quem estava vivendo o pior lado daquela história não poderia ser diferente. O advogado tratou de tomar conhecimento do procedimento na tentativa de verificar se houve algum tipo de abuso:

_ Eu estou bem. Fizeram exames para verificar se eu tinha sofrido algum tipo de agressão, me fizeram perguntas sobre a comida servida. Coisas do tipo… Não foi nada demais…
_ Você não respondeu nenhuma pergunta sobre o caso?
_ Não. Claro que não…

Henrique que estava visivelmente inquieto, pediu para o advogado deixá-los a sós com a irmã e mesmo não achando prudente, ele atendeu, deixando-os a sós e foi o que bastou para que Henrique começasse a falar:

_ Nós estamos endo vítimas de um golpe…

Aquela notícia deixou Cristina preocupada, Edgar contudo pareceu não entender exatamente a informação:

_ Como assim? Vítimas de um golpe?

Henrique explicou detalhadamente tudo que tinha descoberto. Falou do envolvimento de Zora, Rogério e de Izabel. Cristina estava preocupada, mas não parecia surpresa com a noticia. Ela andou de um lado para o outro como quem tentava pensar no que dizer diante da informação recebida. Contudo, Edgar se recusava a acreditar, em sua mente não era possível, Zora não seria capaz de participar de algo assim:

_ É a primeira vez que a gente vê a Cris depois que ela veio pra esse lugar e você vem com essa bobagem? O Rogério não presta, ele é um canalha. Ele deve estar tendo conseguir alguma coisa da Zora. Eu a conheço e sei que ela jamais faria algo assim…
_ Está vendo, ela te seduziu. Isso tudo faz parte do plano doentil daquela mulher.
_ Você está delirando Henrique… A Zora estava desespera quando eu falei com ela hoje, ela estava com medo de que todas as bobagens que o Rogério disse pra ela fossem verdade. Ela até procurou o médico novamente pra saber se era possível perder a memória e se tornar uma outra pessoa…
_ E você acreditou nela?
_ É claro que eu acreditei, você não viu o desespero dela como eu vi. Ela estava com medo, assustada…
_ É puro teatro Edgar, acorda meu irmão. Você está se deixando seduzir por alguém que a gente não faz a menor de idéia de quem realmente seja. Quem te garante que o nome dela é Zora realmente? Quem te garante que ela tem apenas dezessete anos mesmo?
_ Espera um pouco Henrique, fui eu quem descobriu essas informações. Não ela…
_ E quem te garante que essas informações que você conseguiu não são falsas? Você estava lá, você sabe muito bem o que aquela mulher fez com o nosso pai. Ela trocou os medicamentos dele, ele poderia ter sido curado, mas não, ela o matou por causa do dinheiro dele… Você sabe disso. Ela quase acabou com as nossas vidas uma vez e agora está tentando de novo – só que eu não sou um adolescente idiota e não vou deixar ela nos destruir… Eu vou acabar com essa mulher e com toda a corja que estiver junto com ela, a começar por essa Zora ou seja lá qual for o nome dela…

Naquele momento Edgar sentiu o tamanho do ressentimento que havia naquelas palavras. Izabel nem era o problema. Seria mais fácil se fosse apenas ela, afinal, não era uma surpresa sua atitude, mas o problema era Zora por quem ele estava apaixonado e isso estava evidenciado naquela face de homem decepcionado:

_ Você está enganado quanto a Zora. Ela não me seduziu. Ela não me quis porque disse que tinha outra pessoa…
_ Você está sendo ingênuo, mas eu não! Eu vou virar esse jogo…
_ O que você pretende fazer Henrique?
_ Eu vou jogar esse jogo. Não se preocupe Cris, eu não vou perder!

Cristina estava visivelmente preocupada, ela não gostou da visão daquele homem decepcionado que saiu da sala visivelmente mudado. Ele havia perdido algo que talvez nunca mais conseguisse recuperar:

_ Ele esta enganado quanto a Zora – Cris, eu sei disso…

Cristina abraçou Edgar fortemente, ela já não podia mais proteger seus meninos, eles agora eram homens e tinha escolhas dificeis pela frente, só podia esperar que fossem fortes:

_ Eu não sei o que te dizer. Pela primeira vez na minha vida eu não sei o que dizer…
_ Você conhece a Zora, talvez seja a que melhor conhece ela. Também acha que ela seria capaz de fazer isso com a gente?
_ Edgar… Eu não consigo pensar em nada disso agora. Eu preciso de um tempo para organizar melhor meus pensamentos. É tanta coisa ao mesmo tempo…
_ Me desculpe minha irmã. Onde eu estava com a cabeça. Eu não queria ser insencível, não com você e ainda mais num momento como este. Me desculpe…

Categoriasnovela

Trigésimo Capítulo…

Maio 21, 2009 Lunna Deixe um comentário

No dia seguinte, para total surpresa de Henrique, o advogado de sua irmã estava reunido com Zora no escritório e foi assim que ele ficou sabendo que sua irmã tinha assinado uma procuração dando totais poderes aquela garota. A novidade o deixou fora de si – o que o fez pegar o documento e picá-lo em vários pedaços, mas tratava-se de uma cópia:

_ O que está fazendo Henrique? Esse documento é apenas uma cópia que eu trouxe para a Zora tomar conhecimento do que sua irmã fez…

Foi quando Henrique percebeu que poderia estar colocando tudo a perder com sua atitude e tratou de se desculpar, mostrando-se abalado com tudo que estava acontecendo. Ele tentava chorar, mas só conseguia sentir raiva daquela garota que tentava consolá-lo, ao mesmo tempo em que estava aplicando seu golpe final e isso fazia seu sangue ferver. E como sua irmã foi assinar uma procuração nomeando aquela vigarista sua representante? De repente ficou claro porque ela ficado tão tensa com tudo que ele havia contado a ela:

_ Zora, pode nos dar licença, eu preciso conversar a sós com o advogado da minha irmã…
_ Claro Henrique… Depois o senhor termina de me explicar o significado desse documento…
_ Sem dúvida Zora.
Tão logo Zora saiu do escritório, Henrique tratou de tentar descobrir um meio de anular aquele documento o que gerou estranheza:
_ E por que faria isso? Pelo que eu percebi sua irmã confia plenamente nessa moça…
_ Mas eu não confio e não acho que minha irmã deva confiar!
_ Eu sinto muito Henrique, mas eu já conversei com sua irmã sobre isso e ela está ciente do significado desse documento e mesmo assim ela o assinou, então, não temos o que discutir aqui e essa menina, a Zora, ela nem sabia pra que servia esse documento, aliás, ainda não sabe, porque era justamente o que iria explicar a ela quando você entrou aqui de forma tão espalhafatoza…

Dr. Rodolfo deixou Henrique no escritório e foi ao encontro de Zora que estava na sala a sua espera, ele se aproximou rapidamente e avisou para que ela tomasse cuidado com o irmão de Cristina pois ele estava começando a desconfiar do envolvimento dela no plano e foi assim que ela soube que aquele homem também fazia parte do time de Izabel:

_ Não se preocupe, eu cuido dele…
_ Tudo bem! Eu estou providenciando os demais documentos necessários para a transferência dos bens para a Izabel. Levo na empresa amanhã bem cedo. Assim evitamos contratempos com esse idiota. Tudo bem?
_ Eu estarei lá…

Zora esperou que ele saisse e foi ao encontro de Henrique no escritório, ele estava sentado, cabisbaixo e ela prontamente dedicou a massagear seus ombros. Ela tinha uma mão suave, agradável e seus movimentos conseguiriam fazê-lo relaxar se não fosse ela a pessoa que estava ajudando a destruir sua família.

Henrique a puxou para seu colo e a encarou sutilmente. Ela era uma jovem bonita, seus lábios tinham contornos perfeitos. Parecia ser tão inocente aquele seu olhar… Pece macia e perfumada. Era impossível não amá-la, mas ele estava descobrindo ser impossível não odiá-la também. Havia uma enorme tensão na pele de ambos. Havia desejo e a boca de ambos parecia pedir por um beijo demorado e ele tentou mais uma vez, em vão:

_ Eu adoro o cheiro do café, sabia? Mas eu nunca tive coragem de prová-lo…
_ Do que esta falando?
_ Boa noite Henrique…

Categoriasnovela

Trigésimo Primeiro Capítulo…

Maio 20, 2009 Lunna Deixe um comentário

Na tarde do dia seguinte, em uma reunião na AM Publicidades, Zora apresentou uma audaciosa proposta para todos os funcionários. Era o prenúncio de algumas mudanças que iriam acontecer na empresa nas semanas seguintes. Todos ficaram surpresos, mas aprovaram a proposta, afinal, era preciso inovar sempre para conseguir sobreviver no mercado tão competitivo como aquele e inovar era exatamente o que Zora propunha ao contrário de Cristina que queria apenas manter as coisas como estavam, já que há anos vinham dando resultado.

Após a reunião, Zora reuniu-se com Izabel na antiga sala de Cristina, que agora era sua, lá também estavam Leonel que havia trazido um oficial de escritura que iria passar todos os bens de Cristina para o nome de Izabel. Dr.Rodolfo estava lá para servir de testemunha, juntamente com Rogério:

_ Espero que tenham providenciado o champanhe para que nossa festa seja completa porque depois que a nossa querida Zora assinar esses documentos, oficialmente eu serei dona de tudo que era da família Mansur e isso é motivo de festa. Uma cena digna de uma novela, não acham? Só que aqui não teremos mocinhos para deter a vilã…

Zora pediu para que a secretaria providenciasse o champanhe e alguns minutos depois lá estavam eles, brindando o novo momento. Izabel finalmente estava conseguindo uma pequena parte do que tanto desejava e como ela saboreava aquele momento:

_ Bem, minha querida, esse lugar agora é seu por méritos. Afinal, não fosse a nossa audaciosa jovem diretora não teríamos conseguido chegar tão longe… Mas ainda não acabou, ainda falta o grande finalle. Mas vamos deixar a notícia espalhar e todos ficarem sabendo do que aconteceu aqui nessa tarde… Ainda hoje, eu quero tomar posse da minha casa e colocar aquele idiota do Henrique pra fora de lá… Ah! Eu não me esqueci de você Rogério… O Dr. Rodolfo vai providenciar os seus milhões, é só você dar pra ela o número da sua conta pessoal… Foi um verdadeiro prazer fazer negócio com você!
_ Eu digo o mesmo Izabel, afinal, você me fez dois grandes favores: me livrou da chata da sua filha e fez de mim um homem milionário…
_ Agora vamos sair todos daqui e deixar a Zora curtir a sua nova sala. Espero que você mude absolutamente tudo aqui porque essa decoração não combina com você. É muito cafona…

Izabel foi levada pelo motorista até a casa que até então pertencia a Cristina. Assim que chegou deu ordem aos empregados para se livrar da maioria das coisas que estavam naquela casa. Não queria aquelas porcarias estupidas que sua filha havia guardado ao longo daqueles anos.

Henrique chegou em casa no começo da noite e encontrou Izabel sentada na nova mesa da sala de jantar. Estava tudo fora do lugar, havia caixas e mais caixas por todos os lados e algumas malas na porta, inclusive as dele:

_ Boa noite Henrique, aposto como já não se lembrava mais de mim…
_ Quem deixou você entrar nessa casa?

Izabel sorriu gostoso, levantou-se e caminhou em direção ao filho, um homem tolo, estupído com uma insignificância imensa. Ela não conseguia entender como aquilo tinha saído de dentro dela. Por ser seu filho, ele teria que ser mais audacioso, mais esperto, inteligente, mas ele não era nada disso:

_ Eu queria muito ver essa sua cara mais uma vez porque é justamente essa imagem de fracassado que eu quero guardar de você. Agora, você já pode ir…
_ Eu não vou a lugar algum…
_ Vai sim, por bem ou por mal!

Izabel estalou os dedos e dois seguranças apareceram de imediato para providenciar a saída de Henrique que encarou Izabel bem de perto, seus olhos cospiam ódio:

_ Essa história ainda não acabou e você não ganhou nada. Ainda não… Eu ainda vou acabar com você e quando eu fizer isso, você nem vai saber o que foi que te atingiu.
_ Quanto bla bla bla Henrique. Você não é e nunca foi homem pra resolver qualquer problema que fosse. Sempre dependeu da sua irmã pra fazer tudo por você e agora acha que vai conseguir fazer alguma coisa sozinho? Você é hilário, tanto quanto o seu pai. Dois idiotas… Aliás, você saiu a ele! Coloquem-no pra fora da minha casa, agora!

Enquanto isso, Rogério tentava convencer Zora a comemorar com ele a sua conquista, mas ela não estava interessada em suas comemorações. Ela tinha coisas muito mais importantes para pensar e se preocupar, afinal, ela ainda iria visitar Cristina uma última vez e contar a ela toda a verdade, algo que colocaria fecharia com chave de ouro os planos de Izabel:

_ Zora, vamos comemorar em grande estilo, só nós dois, afinal, agora eu sou um homem milionário…
_ Realmente não sei o que te faz pensar que eu quero comemorar alguma coisa com você…
_ Para com isso, eu estou doidinho pra ser todo seu minha linda.
_ Rogério, eu preciso trabalhar – eu tenho muita coisa por fazer ainda e não tenho tempo para comemorações.
_ Zora, eu quero você todinha pra mim, numa banheira de espuma, taças de champanhe… O que me diz?
_ Que você deveria seguir o seu script e procurar uma daquelas vagabundas pra comemorar com você. Eu não vou a lugar algum com você! Agora saía daqui…
_ Você vai se arrepender garota…

Rogério saiu contrariado enquanto Zora trancava a porta para evitar novas surpresas desagradáveis. Ela queria ficar sozinha por um momento. Queria relaxar e começou se largando no sofá, por fim, buscou pelo celular e ligou para alguém:

_ Boa noite… Como estão as coisas aí? Zora tirava os sapatos enquanto ouvia a voz do outro lado que lhe explicava o quão longo estava sendo aquele dia, o que a fez sorrir, afinal, ela também tinha sentido o mesmo: _ Está tudo certo para amanhã ou houve algum contratempo? Largada no sofá, ela seguia ouvindo atentamente o que lhe era dito, mas seus olhos já começavam a fechar, afinal, haviam se passado muitas horas desde a sua última noite de sono: _ Está bem, bem, agora é contar as horas para finalmente isso tudo acabar… Boa noite!

Zora acabou adormecendo ali mesmo no sofá, mas acordou assustada com as batidas na porta. Teve receio de abrir, mas mesmo assim o fez e se acalmou ao ver que era o motorista:

_ O que está fazendo aqui?
_ A dona Izabel mandou vir buscá-la, ficou preocupada porque a moça estava demorando…
_ Eu esqueci da hora. Só vou pegar minhas coisas e já vou…

Alguns minutos depois, Zora estava em casa e Izabel esperava por ela para jantar. A mulher que nunca gostou de ninguém a recebeu com um abraço acalorado e um sorriso luminoso, mas tudo aquilo que tinha uma razão de ser, o dia seguinte em que Zora seria a grande responsável pelo momento triunfal pelo qual ela esperava há muito tempo…

E foi assim, o motorista levou Zora na primeira hora para a delegacia. Cristina ainda estava meio sonolenta e recebeu sua menina com um enorme sorriso e quis abraçá-la, mas ela fez pouco da receptividade de sua mãe adotiva… A conversa toda durou pouco mais de quinze minutos, tempo suficiente para Cristina enlouquecer com as duras palavras ditas por Zora que mostrou-se indiferente a ela…

Quando Henrique chegou a delegacia para falar com sua irmã, viu Zora saíndo com a ajuda de alguns policiais e viu sua irmã sendo segura a força por políciais que tentavam contê-la. Um pouco mais adiante estava Izabel que apreciava tudo com muito prazer:

_ O que foi que você fez?

Mas antes que Zora se dignasse a responder, Izabel interfiriu, evitando que ela dissesse uma só palavra que fosse:

_ Não se preocupe que você vai saber, com toda certeza a sua irmã fará questão de contar isso tudo pra você… Venha comigo Zora, vamos comemorar!
_ Eu vou acabar com vocês duas!

Zora exibiu um sorriso tão cruel que deixou Henrique fora de si, ela já não parecia mais aquela menina de antes: _ Eu acho que não! Tchau…

Henrique tentou ver sua irmã, mas não conseguiu autorização. Ela estava fora de si e não poderia receber visitas. Disseram a ela que por pouco ela não matou Zora, o que serviu para Henrique entender tudo que tinha acontecido, enfim, sua irmã finalmente tinha percebido que ele estava certo, mas não precisava ser daquela forma. Por fim, ele sentou-se num daqueles bancos pouco confortáveis que havia na delegacia e lá ficou, totalmente entregue ao seu fracasso… Definitivamente, ele não sabia mais o que fazer…

Categoriasnovela

Trigésimo Segundo Capítulo…

Maio 19, 2009 Lunna Deixe um comentário

Naquela noite, Izabel estava deslumbrante, tinha ido ao cabelereiro, comprado roupas novas e mandara preparar um excelente jantar para festejar o novo momento de sua vida, ela precisava festejar em grande estilos. A casa estava toda iluminada, assim como aquela personagem saída das sombras daquela história.

Rogério estava eufórico, havia sorrisos vários em seus lábios, mas não era somente ele. Rodolfo também não escondia sua satisfação em estar ali ao lado de Izabel por quem sempre tivera grande estima, ainda mais com a excelente remuneração prometida a ele. Leonel e outros investigadores que participavam da trama também estavam satisfeitos com o fim da trama, afinal, durante algum tempo não se sabia ao certo se tudo aquilo daria certo. Zora assistia aquela euforia toda do seu canto. Não estava indiferente, apenas apreensiva. Ouviu o estouro do champanhe e recebeu das mãos de Izabel uma taça. Claro que Izabel não perderia por nada aquela oportunidade:

_ Eu preciso agradecer a todos vocês, afinal, eu precisei da dedicação de cada um de vocês para conseguir estar aqui hoje depois de tanto tempo. As pessoas que tem pressa não sabe o quanto é bom esperar… Mas é claro que eu preciso lembrar que alguns de vocês chegaram a tremer de medo, lembra-se Leonel? Você não achou que a Zora fosse levar nosso plano adiante. Ele até queria acabar com você, enquanto você estava no hospital… Mas eu achei que você merecia a oportunidade, eu sempre gostei de pessoas ambiciosas e sempre soube reconhecer uma quando vejo…
_ Por que você queria se livrar de mim Leonel?
_ Foi bobagem minha, mas é que eu achei que você iria roer a corda… Achei que não iria aguentar levar tudo até o fim como a gente combinou, mas eu não fui eu o único a pensar assim!
_ Vocês estavam errados, até porque eu não fico ao lado de gente fracassada!
_ É assim que se fala menina…

Izabel gostava de ouvir Zora com aquele ar de superioridade, fazia lembrar a si mesma em alguns momentos e saber que existiam mais pessoas iguaia a ela era muito gratificante:

_ Agora só falta eu me lembrar de tudo porque eu não consegui entender ainda como vocês conseguiram fazer a Cristina matar os meus pais?

Houve um pequeno momento de silêncio, eles quase haviam se esquecido que Zora não se lembrava de absolutamente nada, então Izabel soltou uma enorme gargalhada no ar ao aproximar-se de Leonel:

_ Zora, a Cristina não matou ninguém. A gente apenas a incriminou. Os dois nem faziam idéia que iriam morrer e a príncipio não íam mesmo, mas depois, eles começaram a arrumar problemas e a gente achou melhor se livrar deles realmente, antes que a coisa se complicasse…
_ Foi como eu te disse Zora, ou se faz parte do problema ou da solução. Dos dois não dá. Então eu esmaguei os insetos com a arma do Leonel. Aí ele raspou o número de série e o Rogério a colocou no cofre… É claro que a gente sabia que não era o suficiente, por isso eu precisava da ajuda do ilustríssimo doutor Rodolfo e de um Juíz, amigo dele. Não saiu barato, mas nesse país, quando se tem dinheiro, se tem tudo…
_ Acho que isso tudo merece um brinde realmente…

E pode-ser ouvir o tirintintar das taças, seguidos de goles intensos, sorrisos espassados e o conforto de quem se julga vencedor… Mas não houve tempo bastante nem mesmo para uma segunda taça de champanhe, a polícia invadiu o local dando ordem de prisão a todos naquela sala. Um por um foram sendo algemados, Zora parecia não acreditar em nada do que estava acontecendo ali, por fim, viu Cristina entrar e encarar sua mãe de frente. Izabel estava inconformada, parecia procurar por um delator ou algum deslize seu ou da parte dos envolvidos, mas não parecia haver:

_ Aposto como não esperava por isso, não é Izabel? Mas eu fiz questão de estar presente para olhar bem nessa sua cara e dizer que você falhou pela segunda vez…

Os polícias conduziram um por um para as viaturas que estavam a espera deles no portão, Zora foi a última a ser removida e cruzou com Henrique no meio do caminho. Ele fez questão de encará-la. Havia tanto desprezo em seu olhar e em suas atitudes. Bem la no fundo ele estava feliz com aquele desfecho:

_ E eu nem precisei fazer nada para acabar com você e com toda a sua corja!

Mas havia nos lábios de Zora um sorriso desconcertante que muito o incomodou. Era como se ela não tivesse sofrido uma derrota e como aquilo incomodou Henrique, de tal forma, que ele não conseguiu se conter. Zora sentiu a pele arder abruptamente com o tapa desferido por Henrique contra sua face. Ele fora afastado por outros políciais que a protegiam para desagrado daquele homem ferido e ainda assim apaixonado. Ele ainda disse desaforos vários que somente sua irmã o fez parar. Com os olhos mareados, Zora respirou fundo e tão logo entrou no carro teve suas mãos libertas das algemas. Ela ficou sozinha no carro por alguns instantes até ser consolada pelo policial que estava conduzindo aquelas investigações:

_ Agora falta pouco…

Mas ainda faltava alguma coisa e isso era difícil pra ela, afinal, tudo que ela desejava há tempos era o final de tudo aquilo.

Categoriasnovela

Trigésimo Terceiro Capítulo

Maio 18, 2009 Lunna Deixe um comentário

Cristina levou alguns dias para voltar a empresa e o tempo em que esteve afastada serviu para pensar no que ela realmente desejava para ela e definitivamente aquela empresa não fazia parte de seus planos. Com a ajuda da secretaria reuniu suas coisas, as poucas que ainda haviam por lá, acomodando-as em caixas e levou tudo para seu carro. Ela sabia que não iria sentir falta daquele lugar, então resolveu olhar uma última vez a vista de sua antiga sala e acabou sorrindo ao perceber que era a primeira vez que observava aquela paisagem. No prédio a frente estava sendo montado um outdoor onde havia a foto de um modelo de braços abertos para os céus e logo acima, a frase “Qual o tamanho do seu sonho?” Era o novo slogan da Publicity – Agência de Marketing. Cristina sorriu de uma forma natural, gostosa, lúcida como quem se liberta de algo ou como quem finalmente descobre o tamanho real de seus sonhos… Ela observou atentamente o espaço que estava deixando para trás e saiu lentamente para apreciar bem aquele momento.

Despediu-se de algumas pessoas e partiu dali por todo o sempre…

Mas o que era fim, também era começo para ela e para seus irmãos. Cada um a sua maneira estava indo atrás de algo novo. Sentados numa mesa de restaurante a céu aberto, decidiram vender algumas coisas para libertarem-se de antigas amarras. Eles precisavam ser libertar deles mesmos e partir para novas direções. É claro que sabiam bem o que desejavam e a melhor parte é que sabiam como conseguir o que tanto desejavam. Não se despediram, apenas disseram até breve, mesmo sem fazer idéia de que o tempo ali seria longo e que seria preciso uma festa para reuní-los novamente…

Categoriasnovela

Trigésimo Quarto Capítulo…

Maio 17, 2009 Lunna Deixe um comentário

O lugar escolhido parecia um paraíso e de fato era… Pequenas montanhas verdes garantiam a ilusão de lugar perdido do resto do mundo. A descoberta se deu durante uma viagem, onde o intuito era aprender a fotografar. Cristina sentiu sobre os pés a energia daquele lugar e por lá ficou… Por lá conheceu Álvaro, um homem do campo, que gostava de levantar cedo para cavalgar, nadar no lago e conversar com plantas e animais. Ele era parte de um sonho, seu sorriso era um sol forte brilhando em sua direção. Depois de muitos encontros e desencontros, os dois se descobriram num beijo e alguns anos depois, quando já não se julgava possível, veio a surpresa, a pequenina Fernanda que estava para completar seus cinco anos de vida…

Henrique viera dos Estados Unidos onde era proprietário de duas vitoriosas equipes de automobilismo. Há cinco anos consecutivos sua equipe era a melhor. Carro e pilotos vencedores. Ele estava diferente, era um outro homem em muitos aspectos…

Edgar viera da Índia onde estava vivendo nos últimos meses, ele já havia passado por dezenas de cidades e sua irmã acompanhava tudo de acordo com os postais que recebia pelo correio e as fotos que chegavam pela internet.

Ambos ficaram apaixonados pela pequena Fernanda que era um doce de menina e conseguia tudo que queria junto aos tios que saíram para dar um passeio de charrete pelos arredores. O lugar era realmente incrível e era difícil acreditar que estava tudo ali, bem próximo a São Paulo:

_ Como você achou esse lugar?
_ Ele estava esperando por mim bem aqui…
_ Minha irmã, você está deslumbrante. Se o mundo conta os anos antes e depois de Cristo, você deveria contá-lo antes e depois da CM Publicidade… Aliás, eu vi quem é a nova publicitária do ano, li uma matéria sobre ela…
_ Aposto que ela não deve ser tão boa quanto você era…
_ Está completamente enganado Henrique, ela é muito melhor que eu. Ninguém mais fala no meu nome depois que ela surgiu no mercado publicitário. Ela inovou o conceito de marketing nos últimos anos. Eu era conservadora demais para fazer o que ela fez…

Ao voltar do passeio, Fernanda foi informada que havia uma surpresa para ela em seu quarto e claro que ela correu para lá, onde encontrou um enorme urso de pelúcia. Aquela sim era uma promessa cumprida, o que fez Fernanda correr de volta para a pousada aos gritos “mãe, ela veio”. Apressada, como toda criança, ela queria descobrir em qual quarto ela estava, mas Álvaro não a deixava ver o arquivo da pousada, o que por si só já era uma tortura para a menina:

_ O que está acontecendo aqui?
_ Mãe, pede para o papai deixar eu ver em qual quarto a Zora está… Por favor… Por favor… Por favor…
_ Álvaro, meu amor!
_ Isso é sacanagem…

Zora acordou assustada com as batidas na porta. Ela havia tomado banho e deitado para relaxar um pouco e acabou adormecendo, fazia tempos que ela não dormia duas horas seguidas daquela forma. Tão logo abriu a porta, Fernanda pulou em seus braços:

_ Eu sabia que dessa vez você viria… Eu adorei o meu ursão. Ele é lindo e é enorme…
_ Que bom que você gostou!
_ Eu não gostei, eu adorei…

Zora ainda estava sonolenta e Fernanda percebeu isso tardiamente, foi justamente o que a fez ter um ataque incontrolável de risos:

_ O que foi sua sapequinha? Do que você está rindo?
_ Eu nunca tinha te visto assim!
_ Assim como?
_ Com a cara toda amassada, olhos inchados, descabelada e prestes a perguntar “o que foi mesmo que aconteceu?”. Você está muito engraçada…
_ É mesmo? Zora atacou Fernanda com seus dedos fazendo-a sentir muitas cosquinha, o que só fez aumentar os acessos de risos e as contorções do pequeno corpo de menina que pedia incessantemente para que ela parasse…

Algo que só ocorreu com a entrada de Cristina que inicialmente ficara apenas observando a cena como mãe que gosta de apreciar e rir da brincadeira entre suas filhas e foi justamente sua risada que chamou a atenção de Zora que parou ao vê-la ali, de braços cruzados e com um belo sorriso nos lábios:

_ Seis anos de quarto reservado e ela sempre inventou desculpas para não vir para cá, mas nada como a cobrança da irmã mais nova, não é mesmo?
_ Não é bem assim e você sabe disso. Eu vou ter uma vídeo conferência com um cliente amanhã logo cedo e trouxe três projetos inacabados de empresas grandes que querem entrar o ano com uma nova proposta de marketing para seus benditos produtos… Eu vim, mas o trabalho veio junto!
_ Sabe que eu já vi esse filme antes? Mas aí eu conheci uma adolescente meio irritante que disse que eu deveria aproveitar mais as boas coisas que a vida tem pra me oferecer. Eu soube que ela está aqui na pousada, então depois eu apresento vocês duas… Agora, me dê um abraço sua filha desnaturada…

O abraço apertado, demorado servia para matar um pouco da saudade que Cristina sentia de Zora, com quem falava ao telefone várias vezes ao dia em alguns momentos, mas falar ao telefone nem sempre é o bastante. Você precisa tocar, sentir, olhar nos olhos para se ter certeza de que a pessoa está bem. Zora não era mais uma menina, era uma mulher com estilo todo seu, parte dele herdade de Cristina, quem as observava sorrindo diria que era genético. O corte de cabelos das duas era muito parecido e havia ali alguns gestos que pareciam réplicas, nem mesmo Fernanda se parecia tanto com a mãe quanto Zora:

_ Hei, eu também quero fazer parte desse abraço, estou me sentindo abandonada aqui…

Categoriasnovela

Trigésimo Quinto Capitulo…

Maio 16, 2009 Lunna Deixe um comentário

No dia seguinte, Zora estava no restaurante conversando com seu cliente, apresentando o material que havia preparado quando Álvaro sentou-se ao lado dela para admirar o trabalho da filha por adoção. Os dois se davam muito bem e ele tinha um enorme carinho por Zora. Ele havia preparado um enorme copo de suco de frutas para ela. Aliás, entre muitas coisas, Álvaro também se destacava na cozinha, era um excelente cozinheiro, responsável direto pela maioria dos pratos preparados na pousada:

_ Você bem que poderia ter deixado a Publicity em São Paulo e vir sozinha!
_ Sério, era isso ou uma nova desculpa!
_ Tudo bem, eu aceito a Publicity também…

Alvaro deu um demorado abraço em Zora sobre o olhar atento de Henrique que não foi capaz de reconhecê-la. Achou que era uma das filhas do marido de sua irmã que tinha outras duas filhas que moravam na Europa. Ele se aproximou a fim de cumprimentá-los e foi assim que Zora acabou reencontrando-o após longos dez anos. Henrique não sabia absolutamente nada sobre ela, não imaginava que ela tinha assumido a empresa no lugar de Cristina, que era uma das melhores publicitárias da América Latina, tão pouco sabia que era dela que sua irmã estava falando durante o passeio. Mas Zora sabia absolutamente tudo sobre ele, inclusive fora ela quem produzira boa parte da campanha da equipe dele:

_ Bom dia Álvaro… Olá…
_ Bom dia Henrique. Durmiu bem? Geralmente as pessoas estranham tanta tranquilidade na primeira noite… 
_ Nossa! Eu apaguei…

Henrique só se deu conta de que aquela moça era Zora quando sua sobrinha veio correndo ao encontro dela e a arrastou pelo braço para um passeio “Vamos Zora” dizia ela repetidamente e isso deixou Henrique boquiaberto, ao mesmo tempo em que seu sangue ferveu. Ele deixou Álvaro ali e foi até a porta observar Zora e Fernanda juntas e assim que viu Cristina cobrou explicações dela:

_ Como você tem coragem de deixar aquela mulher próxima da sua filha? Depois de tudo que ela nos fez…

Cristina respirou fundo e foi como voltar no tempo, ela já esperava por alguma reação negativa da parte de seu irmão, mas como explicar a ele sem quebrar a promessa que havia feito a Zora anos antes. Enquanto seu irmão esbravejava de forma austera para desagrado de Álvaro que não gostava de seu tom, ela lembrava-se da conversa que tivera com Zora na delegacia enquanto ainda estava presa.

O investigador que havia sido procurado por Zora a levou até uma sala isolada na delegacia, tomando o devido cuidado para que aquela conversa não fosse ouvida por mais ninguém, além deles, de forma a proteger a investigação interna que eles estavam realizando com base nas informações fornecidas por Zora, que parecia calma, mas seus olhos deixavam transparecer certo desespero. Havia coragem em seus músculos, mas havia medo e insegurança diante de suas lembranças recém recuperadas:

_ Eu vi aquela mulher, a Izabel, sua mãe atirar naqueles dois lá em casa, como se eles não fossem nada só para que eu soubesse do que ela era capaz. Eu me lembro dela rindo e depois olhando pra mim como se não houvesse dois corpos ali, estirados ao chão, então ela olhou pra mim e me disse com uma calma monstruosa: “ou você faz parte do problema ou da solução, você é quem sabe”. Eu estava zonza, eu não sabia o que fazer. Então eu fugi de lá e fui pra sua casa, contar que você estava correndo perigo, mas no meio do caminho eu percebi que o Leonel estava atrás de mim e comecei a correr e nem vi o seu carro, eu não vi nada…

Categoriasnovela

Trigésimo Sexto Capítulo…

Maio 15, 2009 Lunna Deixe um comentário

Cristina respirou fundo, ela queria dizer a Henrique que se não fosse por Zora provavelmente a vida deles seria totalmente diferente e que ela tinha sido muito corajosa ao aceitar fazer parte de tudo aquilo, mas ela não queria quebrar a promessa feita a Zora:

_ É o mais sensato a ser feito. É arriscado, mas pelo que a gente sondou depois de tudo que ouvimos da Zora, tem muita gente envolvida. O próprio juíz que decretou a sua prisão está envolvido e há políciais envolvidos. O esquema é um tanto complicado, assim sendo, o mais prudente a fazer é manter a Zora no meio do bando para que a gente consiga efetuar o flagrante. Acha que consegue fazer isso Zora?
_ Eu consigo, mas tenho uma condição. Não é nada de especial, eu só quero que o Henrique não saiba do que eu estou fazendo…

Cristina segurou firme as mãos de Zora que estavam frias e viu seus olhos transbordarem repentinamente, naquele momento ela soube que Zora havia se apaixonado por seu irmão e lamentou profudamente, ainda tentou demovê-la daquela idéia, mas como não teve sucesso, desisitiu e prometeu a ela que não contaria nada para Henrique. Naquele exato momento, ela percebeu que Zora não era mais uma menina:

_ Ele já escolheu no que acreditar e é melhor que seja assim. Além do mais, eu só quero que isso tudo acabe…

Ela não entendia como seu irmão conseguia ser tão ingênuo e não ver que Zora nunca esteve envolvida no golpe planejado por Izabel. Era como se ele fizesse questão de enxergar o que estava bem diante dele e isso irritou Álvaro profundamente, ele sabia da promessa feita por Cristina, mas ele nunca havia prometido nada:

_ Chega Henrique! Você não vai continuar falando todas essas bobagens da Zora na minha frente. Eu tenho um enorme carinho e um respeito maior ainda por ela…
_ Você não faz idéia do que ela fez, porque se soubesse não deixaria sua filha com ela…
_ Acho que o único que não sabe o que ela fez aqui, é você…
_ Álvaro, por favor…
_ Me desculpe Cris, mas quem prometeu não dizer a verdade para o Henrique foi você e não eu…
_ De que verdade você está falando?
_ A Zora recuperou a memória quando a Cris estava presa e procurou a policia para contar tudo que ela sabia. A Zora fingiu estar do lado daquela gente para que a sua irmã pudesse ser inocentada das acusações e para que a pessoa por trás de tudo aquilo fosse presa. A pessoa que você acusa assistiu a Izabel matar os pais dela e mesmo em choque pelo que tinha acabado de ver, saiu do fim do mundo onde ela morava para contar a sua irmã que ela estava em perigo e por isso ela foi atropelada. Tudo que você ouviu foi um jogo porque o ex marido da Cris temia que a Zora atrapalhasse o plano deles…

Henrique estava imóvel, seus olhos pareciam não acreditar. O nervosismo o fez sorrir. Ele dava passos ao redor de si mesmo. Buscou por sua irmã que estava cabisbaixa o que servia apenas para confirmar que tudo aquilo que ele acabara de ouvir era verdade. Edgar estava certo em não acreditar na culpa atribuída por ele a Zora. De repente tantas coisas faziam sentido e ele lembrou-se do tapa dado por ele na face daquela menina:

_ Por que não me contou Cris?
_ Ela me fez prometer que eu não faria isso. Foi a condição imposta por ela… Eu tentei dissuadí-la, mas ela me disse que você já tinha feito a sua escolha e depois de tudo que eu ouvi naquele dia lá na delegacia de você, concordei com ela. Você preferiu acreditar que ela realmente era culpada…

Henrique saiu atordoado com tudo aquilo, voltou para seu quarto e lá ficou durante horas. Não queria falar com ninguém, não queria ver ninguém. Queria apenas revirar seus pensamentos e sentimentos… Então, depois de algum tempo trancado, resolveu sair para procurar Zora, ela estava sentada na varanda, lendo um livro e não o viu se aproximar. O notou apenas quando ele chamou por ela. Ato esse que a fez respirar fundo e cumprimentá-lo:

_ Boa noite Henrique…
_ Boa noite Zora… Você está bem diferente, eu quase não a reconheci na manhã de hoje. Achei que você fosse filha do Álvaro…
_ Eu soube, ele me contou!
_ Então pode me dizer porque fez isso comigo?

Zora respidou fundo, levantou-se e olhou no fundo dos olhos de Henrique. Fazia anos que os dois não se viam e a imagem renovada daquele homem que um dia ela ajudou a moldar a fez sorrir. Ela não tinha feito absolutamente nada com ele, mas é claro que ele preferia acreditar que esse era o caso. O mais engraçado era que toda aquela ilusão, aquela inquietação que ela sentia antes havia se perdido. Ela estava ali, diante do homem que um dia ela tinha amado e era estranho porque ele era um simples estranho e nada mais e deveria ser realmente assim? Indagava-se ela:

_ Do que você esta falando?
_ Da verdade que eu nunca soube…
_ A verdade é uma coisa muito relativa Henrique. O que é verdade pra mim pode não ser pra você. Depende muito de quem vê e como vê…
_ Não me venha com filosofia barata. Eu odiei você com todas as minhas forças esses anos todos por algo que você não fez. Eu amava você menina… Não faz idéia do quanto foi difícil pensar em você esses anos todos e me obrigar a lembrar que você não… Henrique silenciou-se, ela não merecia ouvir tudo aquilo, não depois de saber tudo que ela tinha feito por sua família: _ Você deveria ter me feito ouvir você. Você estava lá e não me disse nada… Por que?
_ Eu não tinha nada pra dizer a você Henrique. Nada que você realmente você querer ouvir… Eu estava lá também, lembra-se? Nada do que eu pudesse dizer seria ouvido por você!

E Zora estava certa. Henrique exibiu um sorriso amarelado, respirou fundo, queria buscá-la repentinamente junto a paisagem, acolhê-la em um abraço demorado, mas ela estava tão distante. Não era mais a menina por quem havia se apaixonado. Não era mais a Zora que poderia ter passado todos aqueles anos ao seu lado se ele não tivesse sido tão estupido. Anos depois, estavam ali, os dois, um diante do outro e um enorme silêncio se mantinha porque ele não sabia o que dizer. Lembrou-se novamente do tapa e tal lembrança o feriu a alma:

_ Pode me perdoar?
_ Mas não há o que perdoar Henrique. Aquilo tudo ficou para trás, faz parte de um passado distante…
_ Mas eu penso nele todos os dias, eu nunca deixei de pensar em você e repetia pra mim mesmo que você não valia a pena… Zora, não houve um só momento nesses anos todos que eu não tenha amado intensamente você!

Henrique se aproximou de Zora, tocou seu rosto suavemente, quase como quem procura algo que deveria estar lá e ao fazê-lo, percebeu que talvez tivesse passado tempo demais:

_ Você se transformou numa linda mulher…

Categoriasnovela

Trigésimo Sétimo Capítulo

Maio 14, 2009 Lunna Deixe um comentário

Zora se afastou de Henrique e ficou a observá-lo atentamente, ela estava tão lúcida que tudo que conseguiu fazer foi sorrir ao mesmo tempo em que respirava fundo. Ela havia imaginado muitas vezes como seria revê-lo e agora lá estava ele e não havia absolutamente nada de especial naquele momento. Henrique era apenas mais uma pessoa fazendo parte da paisagem:

_ Eu vou dar uma volta…
_ Posso ir com você? Eu quero saber de você, quero ouvir você…
_ A bem da verdade eu quero observar as estrelas, a lua, mas quero fazer isso sozinha.
_ Está bem, eu vou esperar você voltar…
_ Posso te pedir uma coisa Henrique?
_ Claro, o que você quiser…
_ Não espere por mim. O tempo passou para nós dois, de maneiras diferentes, mas passou. Boa noite…
_ Zora… Espera. Deixa eu provar pra você que eu te amo, me dá essa chance!

Mas Zora nada disse, apenas se desvencilhou dele e saiu andando sem destino, com as mãos no bolso da calça. Ela estava leve, feliz… Estava sorridente, pulava sobre a relva e torcia para que chovesse para rodopiar na chuva, pular em poças d´água e acabou deitando na grama, bem no meio do nada para observar o céu que estava absurdamente estrelado. Ela não tinha absolutamente nada em sua mente. Era como se todo o universo tivesse feit uma pausa exatamente ali…

Depois de algum tempo deitada ali, como quem se abandona junta a grama. Zora levantou-se e caminhou lentamente de volta para a Pousada. E para sua supresa, sentado junto a escada de acesso a pousada, estava Edgar que assim que a viu, correu em sua direção para abraçá-la fortemente:

_ Que bom ver você novamente Zora. Deixe-me olhar pra você… Você está…
_ Diferente???
_ Eu ía dizer: linda… Recebeu meus postais?
_ Claro! Todos eles… E as fotos também! Eu praticamente visitei aqueles lugares todos com você…

De repente, Zora percebeu naquele momento que muita coisa havia mudado em sua vida, mais do que ela conseguia imaginar até aquele instante. Então Edgar acariciou seu rosto com uma das mãos e sorrindo lhe disse:

_ Eu preciso te contar uma coisa!
_ Então conta logo, você sabe que eu sou anciosa…

Ele se voltou para ela, olhou bem no fundo dos seus olhos, abriu um sorriso gostoso, respirou fundo e disse: _ Quando eu fui viajar, eu tinha a sensação de que você estava lá em algum lugar do porto, acenando pra mim, dizendo que iria me esperar e eu dizendo pro vento “avisa a ela que eu volto porque ela é a mulher que vai me levar a locura”…

Zora ficou com os olhos cheios de água, seu coração perdeu o compasso e sua pele ganhou um arrepio suave, mas desconcertante. Havia em sua alma uma enorme paz e uma tranquilidade tão intensa que nada no mundo poderia perturbá-la naquele momento. Uma lágrima percorreu aquele rosto e então ela percebeu que há tempo esperava por aquele menino aventureiro. Zora percebera que foram precisos longos dez anos para que ela perceber que amava Edgar com tudo que ela tinha de melhor em sua pele. E ali, tendo como testemunha toda aquela lindissima paisagem, ela fechou os olhos e espero por ele – que a viu ali, ao seu alcance a entregar a ele, algo que ele também esperava ha anos. Os lábios dos dois se tocaram suavemente, como quem se redescobre, se reinventa, e se permite uma saudade de longa data…

Henrique que seguia a esperar por Zora apareceu a tempo de presenciar aquela cena que o frustrou infinitamente. Havia lamentação em sua pele, tanto quanto havia lágrimas em seus olhos. Ele respirou profundamente e lembrou que seu irmão em momento algum acreditou que Zora fosse culpada das acusações que ele insistia em creditar a ela… Ele a defendera a exaustão, criticando-o por acreditar em toda aquele mentira, esforçando-o para lhe fazer ver que Zora era muito mais do que ele imaginava…

Henrique voltou para o interior da pousada e encontrou algum conforto nos braços de sua irmã que sabia bem a dor que ele deveria estar sentindo:

_ Eu a perdi porque fui um grande idiota…

No mesmo dia, Henrique fez as malas e voltou para os Estados Unidos, saiu sem se despedir de absolutamente ninguém. Estava magoado, ferido na alma. Não culpava ninguém além de si mesmo, mas não suportaria ficar e ver Zora nos braços de seu irmão novamente… Ele seguiu com sua rotina de ser vitorioso e ser visto com várias mulheres, uma mais bonita que a outra.

Henrique já havia sido casado uma vez e com toda certeza não iria querer aquilo em sua vida novamente, essa era a desculpa que ele dava a si mesmo quando pensava em Zora e em tudo que eles poderiam ter juntos. Ele não a odiava mais, mas seguia tentando não amá-la também…

Categoriasnovela

Trigésimo Nono Capítulo..

Maio 13, 2009 Lunna 1 comentário

Zora e Edgar foram morar juntos em São Paulo, numa bela tarde de outono, enquanto passeavam de moto pelas ruas da cidade, encontraram uma casa de esquina abandonada. O mato crescia por todos os cantos, as janelas e portas estavam quebradas e aos olhos dos dois aquela era a promessa de uma aventura, então compraram o local e a primeira providência foi cortar a grama que se extendia ao longo da calçada. Lá, fizeram um pequinique num final de tarde. Aos poucos, a casa foi ganhando forma… Dois anos depois, ela estava pronta…

Alguns anos mais tarde, Álvaro faleceu e Cristina quase não suportou aquela perda, mas Zora novamente estava lá para fazer a diferença:

_ Mãe, você não perdeu nada, muito pelo contrário, você ganhou muito. Você esteve ao lado dele durante tanto tempo e vocês foram tão felizes juntos e isso é tudo que importa.  Vocês se deram muitos presentes, a Fernanda talvez seja o maior deles… Pense bem, quantas pessoas nunca vão saber o que é ter o que você teve?
_ É exatamente por isso que dói tanto…
_ Não mesmo dona Cristina… É por tudo isso que vale a pena continuar, acha que ele iria querer ver você assim? Levanta dessa cama que você tem muita coisa pra fazer e muito por viver… Sei lá, de repente existe algo de real nessa história de vida após a morte e ele vai estar lá, esperando por você quando o destino escrever a palavrinha fim na sua história…

Cristina abraçou fortemente Zora e chorou compulsivamente, alguns minutos depois, ela conseguiu sorrir ao olhar para Zora. Seu peito ainda estava tão pequeno e tão apertado, mas ela sabia que sua filha tinha razão. Era preciso respirar fundo e dar o passo seguinte. Cristina iria sobreviver aquele momento também e ela teria ao seu lado, Zora e Fernanda…

Edgar e Zora não foram felizes para sempre…
Ele seguia sendo um aventureiro e ela seguia sendo uma profissional apaixonada pelo universo que frequentava. Nisso, eles eram diferentes… Então era comum, Zora acordar e encontrar bilhetes de até logo… Ela sorria e sabia que ele voltaria… As vezes passavam-se dias, meses e até anos, mas ele voltava… Numa dessas voltas, Edgar conheceu a filha que já estava com seis meses e tinha ganho o nome de Sarah, elas estavam lá junto com sua irmã e sua sobrinha fazendo um delicioso pequinique na frente da casa de esquina, que exibia cores de primavera, tons de outono e sol de verão bem no meio da tarde…

Ali, deitados sobre uma dessas toalhas de pequiniques, eles trocavam beijos cheios de uma gostosa saudade, enquanto Fernanda tentava não pensar nas provas do vestibular e se dedicar a leitura de um românce escrito por uma amiga da faculdade e Cris cuidava de sua neta que tinha um lindo sorriso:

_ Gente, eu não tinha me dado conta. A nossa família é totalmente louca…
_ Por que isso agora Fernanda?
_ Presta atenção nessa loucura toda: o seu irmão é o seu genro. O meu tio é o meu cunhado, e a sua neta é a sua sobrinha… Coitada da Sarinha, ela vai surtar pra tentar entender isso tudo…
_ E eu não sei como você não surtou pensando nisso tudo!

Mas quem passava por aquela esquina via apenas uma família. Incompleta devido a ausência de uma outra pessoa, mas isso era algo que apenas alguns deles sabiam, a maioria via apenas uma família feliz dando boas risadas das bobagens que ocasionalmente Fernanda dizia…

Naquela tarde eles ergueram seus copos e cada um deles lembrou de brindar a algo em especial:

_ As minhas lembranças… Disse Cristina ao pensar em Álvaro, seus irmãos, Zora, Fernanda e na pequena Sarah.
_ A momentos como esse. Que eles durem pra sempre! Disse Fernanda que na verdade não achava sua família louca, ela era feliz por fazer parte do mundo ao lado daquelas pessoas que para ela eram incríveis.
_ A mulheres da minha vida… Edgar fez sorrisos orgulhos florescerem enquanto todos olharam para Zora que seria a próxima a propor um brinde. Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes, como quem olha para toda uma vida e para si mesmo:
_ A tudo isso e muito mais, que seja eterno enquanto dure e se tiver que ser pra sempre, então que seja…

Ouviu-se o tirintintar dos copos, alguns abraços, muitos outros sorrisos, comentários vários, brincadeiras muitas e a sensação que tudo ao redor deles tinha feito uma pausa, ainda que pequena…

Fim…
Categoriasnovela